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Áudios gravados por Joesley podem anular delação premiada da JBS

As gravações foram feitas durante o processo de negociação da delação premiada de Joesley e Saud com a Procuradoria.

NAYRANA MEIRELES

- atualizado

Os delatores da JBS, Joesley Batista e Ricardo Saud entregaram na última quinta-feira à Procuradoria-Geral da República (PGR), áudios de conversas que podem anular a delação premiada dos executivos. A Veja teve acesso exclusivo às gravações.

Segundo a reportagem, na primeira parte dos áudios, os dois delatores, aparentemente sem notar que eles estão se gravando, falam sobre como se aproximar do procurador-geral Rodrigo Janot por meio do agora ex-procurador Marcelo Miller e sobre a exigência de eles não serem presos após fecharem os acordos de delação premiada.

Em um dos pontos do áudio, que possivelmente foi gravado, segundo a Veja, em 17 de março, Joesley e Saude afirmam que Fernanda, possivelmente a advogada Fernanda Tórtima, “surtou” porque, a depender dos rumos da delação e de qual autoridade citassem em depoimento, os dois poderiam “entregar” o Suprem, fazendo referência aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

  • Foto: Ayrton Vignola/Estadão ConteúdoJoesley BatistaJoesley Batista

Em outro ponto da conversa, os delatores também analisam que, ao decidirem delatar, têm de “ser a tampa do caixão” na política brasileira. “Eu quero nós dois 100% alinhado com o Marcelo…nós dois temos que operar o Marcelo direitinho pra chegar no Janot…eu acho…é o que falei com a Fernanda [possivelmente Fernanda Tórtima, advogada]…nós nunca podemos ser o primeiro, nós temos que ser o último, nós temos que ser a tampa do caixão…Fernanda, nós nunca vamos ser quem vai dar o primeiro tiro, nós vamos o último…vai ser que vai bater o prego da tampa”, diz o empresário em um dos trechos da gravação. “Nós fomos intensos pra fazer, temos que intensos pra terminar”, completa Joesley Batista.

Saud comenta ainda durante a gravação, como Marcelo Miller, que foi braço direito de Janot no Ministério Público, está atuando para “tranquilizar” os delatores e relata que a tática para se aproximar e conquistar a confiança do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, é a de “chamar todo mundo de bandido”. “Cara, eu vou te contar um negócio, sério mesmo. Nós somos do serviço, né? (A gente) vai acabar virando amigo desse Ministério Público, você vai ver. Nóis vai virar amigo desse Janot. Nóis vai virar funcionário desse Janot. (risos). Nós vai falar a língua deles. Você sabe o que que é?”, pergunta Joesley.

“A língua… domina o país… dominar o país”, completa Saud. Na sequência, Joesley dá a deixa: “Você quer conquistar o Marcelo? Você já achou o jeito. Cê quer conquistar o Marcelo? Você já achou o jeito. É só começar a chamar esse povo de bandido. Esses vagabundo bandido, assim”

Confira a gravação de Joesley Batista e Ricardo Saud!

Entenda

Por terem omitido os episódios citados na conversa durante os depoimentos prestados como parte da delação premiada, os delatores poderão ter os benefícios de acordo cassados, conforme Rodrigo Janot anunciou nesta segunda-feira (04). Os dois delatores devem ser ouvidos novamente pela Procuradoria para explicar os episódios a que se referem na gravação.

A gravação foi feita durante o processo de negociação da delação premiada de Joesley e Saud com a Procuradoria. Além dos ministros do Supremo, são citados ainda pelos delatores, o ex-procurador da República Marcelo Miller, que trocou a assessoria do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, por um escritório de advocacia contratado pela JBS. Os delatores dão a entender que no mesmo período em que auxiliava Janot na Lava Jato, Miller já trabalhava para a JBS.

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