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"Ele vai escolher quando crescer", diz mãe sobre gênero do filho

Ela disse que caso o filho decida ser trans, ele terá o apoio dos pais e que esse tipo de criação não irá influenciar a orientação sexual de Gael.

RAISA BRITO

- atualizado
  • Foto: Arquivo PessoalAna Paula e o filhoAna Paula e o filho

Ana Paula Siewerdt, de 37 anos, e o marido Anderson Martiniano de Souza, 43 anos, decidiram que o filho Gael, de 1 ano e 7 meses, será criado livre de preconceitos, e sem um gênero que será definido por eles. Os pais querem que apenas quando Gael ficar mais velho possa definir o seu gênero. A decisão do casal foi divulgada no site Uol, em um depoimento onde Ana Paula fala sobre a sua escolha.

Devido a isso o casal decidiu que o menino iria vestir tanto roupas masculinas, como femininas. Ela disse que caso o filho decida ser trans, ele terá o apoio dos pais e que esse tipo de criação não irá influenciar a orientação sexual de Gael.

“Meu filho não vai ser gay porque o visto com roupa de mulher ou porque o deixo brincar de amamentar sua boneca. Não é isso que vai influenciar a orientação sexual e o gênero dele. O Gael é uma criança e por enquanto é menino. Só quando for mais velho é que vai escolher o que quer ser. Se falar que é uma menina, não vou contestá-lo. Ele tem personalidade, não cabe a mim mudar o percurso da vida dele” afirmou Ana Paula.

Ela disse que irá apoiar a decisão de Gael. “Se amanhã ou depois ele se descobrir transgênero, vamos apoiá-lo e respeitá-lo. Como feminista, luto pela igualdade de direito entre homens e mulheres, me oponho ao preconceito contra homossexuais, contra trans e quero que ele aprenda esses valores. O mundo é muito diversificado e não dá para ignorar isso e educá-lo em uma ‘caixa’. Nesse sentido, nossa escolha ao criar o Gael é para que ele seja livre e respeite o outro independentemente da roupa que usa, da raça, do sexo, do gênero e da cor”, afirmou a mãe.

A gravidez

Ana Paula explicou que o casal não estava planejando ter um filho e estava com uma viagem marcada para deserto do Atacama quando ela decidiu fazer alguns exames. Foi assim que descobriu a gravidez.

“A médica do laboratório disse: ‘Eu não posso realizar esse procedimento’. Eu questionei: ‘Como assim?’. Ela respondeu: ‘Tem um bebê enorme aí dentro, provavelmente de uns quatro meses’. Desesperada, eu chamei ela de louca e levantei da maca com o aparelho e tudo, só lembro de ter dito: ‘Eu não posso estar grávida, eu não quero ter filho, isso não é verdade’. Ao contar a notícia para o Anderson, fomos à ginecologista e eu já cheguei perguntando se dava para abortar. Ela disse que não me aconselharia, porque eu correria risco de morrer. No dia seguinte, fizemos o ultrassom e descobrimos que era menino. Achei bom. Ser mãe de menina deve ser difícil, mulher sofre muito preconceito”, explicou.

Ela disse que acabou se acostumando com a ideia da gravidez e parou de trabalhar para cuidar de Gael com o objetivo de “criar um filho para ele ser o que quiser desde que respeite as pessoas e suas diferenças e limitações”, disse.

Uso de roupas femininas

“Comecei a montar o enxoval com sete meses e na hora de comprar as roupinhas, não escolhi apenas os tradicionais tons e modelos masculinos. O Gael é uma criança, ele não é obrigado a usar azul, cinza, preto. Ele tem o direito de explorar tudo. Por esse motivo, o guarda-roupa dele é variado independentemente da cor e gênero: ele tem roupas coloridas, brilhantes, com estampas, calça saruel, calça mais acinturada, camisa feminina, masculina, macacão, bermuda, chapéu, boné e óculos de sol. Ele também tem três sandálias Melissa: uma laranja, uma amarela com desenho rosa e outra preta. Quando ele quer usar uma delas, ele mesmo vai na gaveta e pega.

  • Foto: Arquivo PessoalGaelGael

A ideia de comprar roupas sem gênero aconteceu de forma natural. Eu e o Anderson escolhemos as peças de acordo com o nosso gosto e visando ao conforto. A primeira vez em que eu coloquei turbante no Gael, ele tinha 6 meses. Houve um episódio em que eu estava na rua quando uma mulher me abordou e disse que nunca tinha visto um bebê tão lindo daquele jeito, que usa turbante. Ela não aguentou e pediu para tirar uma foto com ele. As pessoas acham que ele é uma criança diferentona, mas na verdade não é. Ele é normal, a única diferença é ser livre para usar o que quiser”.

Muitas vezes Gael é confundido como uma menina. Ana Paula disse que isso não a irrita. “Eu não me incomodo quando sei que não é por mal, apenas corrijo falando que é um menino. Agora quando eu percebo que é por maldade sempre arranjo confusão. Um dia desses eu estava no caixa de um empório e um funcionário supermachista e grosseiro falou para mim: ‘Assim não dá né mãe, vestir o filho com a camiseta da Mulher-Maravilha? Ele vai virar mulherzinha’. Eu retruquei: ‘Se ele quiser ser mulherzinha, é um direito que ele tem. Não é a roupa que vai definir o gênero nem o caráter dele. Você está sendo preconceituoso, não sabe o que está falando”.

Essa não foi a primeira vez em que recebi críticas ou me envolvi numa briga. Tenho um vizinho com um filho da idade do Gael. Eles são completamente diferentes, o menino é o típico ‘mauricinho’. Uma vez esse vizinho fez o seguinte comentário: ‘Gael, o tio vai dar umas roupas de homem para você’. Eu fiquei p... e prontamente respondi. Aí já viu, né? Ficou aquele climão”, afirmou.

“Pela dificuldade em achar roupas unissex, comecei a procurar marcas e mães empreendedoras que produzissem peças sem gênero. Foi assim que encontrei a Mini.mi Estúdio, da Adriana Farias. Gosto muito das criações dela, pois as roupas são feitas tanto para meninos quanto para meninas. Curto as edições limitadas que eles fazem de roupas iguais para pais e filhos, acho bem estiloso. Outra loja que compro bastante, apesar de vender peças exclusivamente femininas, é a Fábula. O Gael tem três macacões de lá”, disse.