Política

Joesley chama Michel Temer de 'chefe de organização criminosa'

O Palácio do Planalto divulgou nota na qual diz que empresário é "bandido notório".

BRUNNO SUÊNIO

- atualizado

O empresário Joesley Batista, dono do grupo JBS, concedeu entrevista à revista Época publicada, neste fim de semana, e chamou o presidente Michel Temer de "chefe de organização criminosa".

Joesley, delator da Operação Lava Jato, também reafirma as denúncias que fez ao Ministério Público e à Polícia Federal contra as cúpulas de PT, PMDB e PSDB.

  • Foto: Ayrton Vignola/Estadão ConteúdoJoesley BatistaJoesley Batista

Segundo o empresário, tudo começou há cerca de 10, 15 anos, quando surgiram grupos com divisão de tarefas: um chefe, um operador e um tesoureiro.

Joesley afirma ainda que esses esquemas organizados começaram no governo do PT e diz que "Lula e o PT" institucionalizaram a corrupção com a criação de núcleos, divisão de tarefas entre integrantes, em estados, ministérios, fundos de pensão e bancos, entre os quais o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O dono da JBS declarou também que, na maioria dos casos, os pagamentos viraram uma obrigação. Ele citou, como exemplo, o ex-ministro da Fazenda nos governos Lula e Dilma Rousseff, Guido Mantega. "Olhe o caso do Guido. 'O BNDES comprou ações e investiu na sua empresa. Como você não vai me dar dinheiro?'", contou.

Questionado se essa prática funcionava como um contrato informal, Joesley confirmou e acrescentou que ele e a JBS nunca pagaram "um centavo" de propina dentro do BNDES, "do presidente Luciano Coutinho ao técnico mais júnior".

A revista perguntou a razão para pagar propina para Guido e para o PT se as relações com o BNDES eram republicanas. Joesley diz que pagava porque estava nas mãos do governo. "Era só o Guido dizer no BNDES que não era mais do interesse do governo investir no agronegócio e pronto. Segundo Joesley, "bastava uma mudança de diretriz de governo para acabar com o negócio".

Michel Temer

Em determinado ponto da entrevista, Joesley passou a detalhar sua relação com o presidente Michel Temer iniciada entre 2009 e 2010, quando o peemedebista ainda era vice-presidente.

De acordo com ele, no segundo encontro, Temer deu o número de seu celular e os dois passaram a trocar mensagens. Joesley afirmou ainda que frequentou o escritório e a casa do presidente em São Paulo e o Palácio do Jaburu, residência oficial do vice em Brasília.

Joesley narrou que a relação entre os dois era institucional, de um empresário que precisava resolver problemas e que via em Temer a condição de resolver problemas.

  • Foto: Dida Sampaio/Estadão ConteúdoPresidente Michel TemerPresidente Michel Temer

Acrescentou que achava que o presidente via nele um empresário que poderia financiar as campanhas – e fazer esquemas que renderiam propina.

Joesley Batista declarou ainda que, desde que se conheceram, teve “total acesso” a Temer.

O empresário afirmou que o presidente não tem muita “cerimônia” para tratar desse assunto e que “não é um cara cerimonioso com dinheiro”.

Segundo o empresário, em uma ocasião, o presidente pediu para que o empresário pagasse o aluguel do escritório dele na Praça Pan-Americana, em São Paulo. Joesley relatou que desconversou e que Temer nunca mais o cobrou.

A revista, então, perguntou se o empréstimo do jatinho da JBS ao então vice-presidente também ocorreu dessa maneira.

Joesley respondeu que não se lembra direito, mas que o pedido era dentro desse contexto: “Eu preciso viajar, você tem um avião, me empresta aí”, disse o empresário. Ele disse ainda que Temer acha que o cargo que ocupa “já o habilita” a fazer tais pedidos. “Sempre pedindo dinheiro. Pediu para o Chalita em 2012, pediu para o grupo dele em 201”, relatou.

O empresário afirmou que a pessoa a quem o deputado cassado Eduardo Cunha se referia como seu superior hierárquico era Michel Temer. “Tudo que o Eduardo conseguia resolver sozinho, ele resolvia. Quando ficava difícil, levava para o Temer”, relatou.

A reportagem, então, perguntou: “O chefe é o presidente Temer?”. E Joesley respondeu diretamente: "O Temer é o chefe da Orcrim, organização criminosa da Câmara. Michel Temer, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves, Eliseu Padilha e Moreira Franco. É o grupo deles. Quem não está preso está hoje no Planalto. Essa turma é muita perigosa. Não pode brigar com eles”.

Eduardo Cunha e Lúcio Funaro?

Joesley Batista disse que foi chantageado pelo ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e pelo doleiro Lúcio Funaro.

O empresário afirma que, se não aceitasse pagar propina aos dois, o crédito legítimo que tivesse pedido na Caixa Econômica Federal não era analisado. Como exemplo, ele afirma que deu entrada em um financiamento no FI-FGTS da Caixa, mas que o vice-presidente do banco à época, Fábio Cleto, indicado por Funaro e Cunha, descobriu a solicitação.

Foi então que, segundo Joesley, Funaro entrou na vida do empresário. Ele afirma que o "modus operandi" era assim: Joesley tentava fazer operações na Caixa, Lúcio descobria e dizia a ele: "Vai ter os 3%, né?". E aí, segundo o empresário, a JBS tinha que pagar.

"Um toma-lá-dá-cá muito às claras. Paga os 3%, e o financiamento passa no comitê. Se não paga, alguém pede vista", disse Joesley.

  • Foto: Theo Marques/Fotoarena/Estadão ConteúdoEduardo Cunha Eduardo Cunha

O empresário também explicou, na entrevista, o papel das campanhas eleitorais no esquema. Ele disse que a campanha "permite ao político sair pedindo dinheiro". E o que o político faz com o dinheiro, o empresário não sabe.

"É por isso que os partidos se multiplicaram. Ter partido dá oportunidade de fazer negócio escuso. Como o partido maior precisa do partido menor para fazer coligação, vira balcão, vira organização criminosa", diz o empresário.

Joesley confirmou também que manteve pagamentos a Eduardo Cunha e Lúcio Funaro mesmo depois que os dois foram presos.

O empresário diz que virou "refém" dos presidiários. Afirmou à "Época" que, quando já estava claro que Cunha seria preso, o ex-deputado pediu R$ 5 milhões. Dez dias depois do episódio, Cunha foi preso.

Joesley contou que, antes de Cunha ser preso, o peemedebista havia indicado um homem chamado Altair como mensageiro.

Um mês depois da prisão, segundo o empresário, Altair apareceu e disse que a família de Cunha precisava do dinheiro e que "logo, logo" o ex-deputado seria solto.

O dono da JBS diz que foi pagando, em dinheiro vivo, para Altair ao longo de 2016.

Com relação à Funaro, o doleiro indicou como mensageiro primeiro um irmão e, depois, a irmã. Ele disse que pagou mesada e que os dois presidiários confiavam nele e pediam para que Joesley cuidasse de seus familiares. Em troca, não o delatariam.

Segundo Joesley, Funaro e Cunha mandavam recados por interlocutores dizendo “você está cumprindo tudo direitinho, não vão te delatar”. Joesley disse que toda hora era procurado pelo mensageiro do presidente Michel Temer para garantir que ele estava mantendo esse sistema.

Joesley disse que este mensageiro de Temer era o ministro Geddel Vieira Lima que o procurava a cada 15 dias “em uma agonia terrível”. Sempre querendo saber se estava tudo certo, se ia ter delação, se Joesley estava cuidando dos dois dizendo que o presidente estava preocupado e que quem estava incumbido de manter o Eduardo e Lúcio “calmos” era Joesley.

Joesley diz que, depois que Cunha foi preso, manteve a interlocução desses assuntos via Geddel. E que o ex-ministro informava o presidente por meio de Geddel que, segundo Joesley, sabia que o dono da JBS estava pagando Lúcio e Eduardo.

Na entrevista, Joesley disse que até o fim do ano passado continuava conversando bastante com os políticos tentando entender qual seria a solução para esse problema.

Até dezembro, acreditou-se que a solução seria aprovar a anistia ao caixa dois e a lei de abuso de autoridade. Com a lei do abuso, os políticos acreditavam que se iria segurar a Lava Jato e com a anistia ao caixa 2, acreditava-se que se legalizava as coisas erradas do passado.

A revista perguntou quem comandava esse movimento. Joesley respondeu que era Michel Temer, que cabia a Geddel articular a anistia ao caixa 2 e a Renan, o projeto de abuso de autoridade. Mas que os assuntos “morreram”.

“A recuperação econômica começou a vir, o brasileiro não iria mais para a rua e eles poderiam abafar a Lava Jato”, declarou Joesley.

A revista questionou se foi aí que veio a decisão de tentar a deleção.

"Iríamos esperar o quê? Ser presos, a empresa quebrar, causar desemprego, dar prejuízo ao BNDES, à Caixa, ao mercado de capitais, aos credores?”, quesitonou Joesley.

Ele acrescenta que quando percebeu que as coisas não iam mudar não havia o que esperar, que os políticos não estavam entendendo o que estava acontecendo com o país. Aí Joelsey começou a registrar as conversas dele. Aí, joesley foi se encontrar com Temer.

Versões dos citados

A secretaria de Comunicação da Presidência da República informou, na tarde deste sábado (17), por meio de nota, que o presidente Michel Temer ingressará na próxima segunda-feira (19) com ações na Justiça contra o dono do grupo J&F, Joesley Batista.

No texto, a Presidência critica o acordo de delação premiada firmado pelo empresário e o chama de "bandido notório".

A defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a entrevista tem que ser entendida no contexto de um empresário que negocia o mais generoso acordo de delação premiada da história e que mesmo assim, Batista foi incapaz de apontar qualquer ilegalidade cometida ou do conhecimento do ex-presidente Lula. Ainda segundo a defesa, considerações genéricas e sem provas de delatores não têm qualquer valor jurídico.

O deputado Eduardo Cunha nega qualquer participação ilícita afirma que prestará nos autos todos os devidos esclarecimentos.

O senador Renan Calheiros negou que a Lei do Abuso de Autoridade tenha a intenção de atrapalhar a Lava Jato, uma operação importante para o pais e que foi discutida com diferentes setores, inclusive com o Judiciário. com a intenção de proteger todos os brasileiros.

O PMDB ainda não tinha divulgado nota até a última atualização desta reportagem.

O ex-deputado Henrique Eduardo Alves e o ministro Eliseu Padilha não vão se manifestar.

A defesa de Geddel Vieira Lima disse que ele permanece convicto de que ninguém poderá enredá-lo em qualquer ilicitude já que jamais praticou qualquer ilegalidade. E que o cliente continua, como sempre esteve, à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários, já tendo renunciado aos seus sigilos bancário e fiscal.

O PSDB e o senador afastado Aécio Neves, disseram que, conforme dito pelos próprios delatores, a JBS doou cerca de R$ 60 milhões para as campanhas do partido em 2014, parte para a campanha presidencial e parte para as estaduais, conforme registrado no TSE. E, segundo eles, jamais houve contrapartida para essas doações o que torna absurdo caracterizá-las como propina

A defesa de Lúcio Funaro disse que desde o primeiro depoimento prestado à PF ele vem respondendo tudo que lhe é indagado de modo preciso e de acordo com a verdade, que ele não vai comentar a entrevista e que tudo será respondido nos autos dos processos ou dos inquéritos em tramitação.

Gabriel Chalita declarou que não pediu nada para a campanha a Joesley e que toda a arrecadação foi feita pelo PMDB nacional, que fez a prestação de contas, aprovada pela Justiça Eleitoral.

A TV Globo não havia recebido, até a última atualização da reportagem, resposta das defesas de Guido Mantega e Moreira Franco.

O PT também não tinha se manifestado.

A TV Globo não obteve contato com as defesas de Rodrigo Rocha Loures e Fábio Cleto.