Piauí - Teresina

Mototaxista estuda quase dez horas por dia no centro de Teresina

Conheça a história de vida do mototaxista, professor de geografia, e bacharelando em direito, Jevan Starly Macedo Silva, de 42 anos, natural de Regeneração, casado, e pai de dois filhos!

PRISCILA CALDAS

- atualizado

Uma das missões dos jornalistas é de publicitar fatos que afetam a vida do receptor. “Temos a missão de trazer a público notícias que sejam de interesse do público, e sim, a maioria das notícias não são boas”.

Provas dessa afirmação são os inúmeros jovens que morrem pelo tráfico de drogas, trabalhadores que são mortos por se negar a entregar o celular que comprou com o suor do trabalho, prefeitos condenados por desviar recursos de lanche escolar, além do trabalho contínuo do Tribunal de Contas do Estado na reprovação de contas dos governos, como também as uniões partidárias de pessoas públicas que até ontem eram inimigos políticos: diariamente, quem acessa o GP1, se depara com muitas dessas notícias.

Mas as pautas dos jornalistas não se resumem só a isso. Prova disso é a história de vida do mototaxista, professor de geografia, e bacharelando em direito, Jevan Starly Macedo Silva, de 42 anos, natural de Regeneração, casado, e pai de dois filhos, que você vai conhecer a partir deste momento, e verá como o estudo ainda é o escape mais justo para se combater as desigualdades e injustiças sociais aos quais os veículos de comunicação noticiam a todo momento.

  • Foto: Lucas Dias/GP1Jevan Starly Macedo SilvaJevan Starly Macedo Silva

Pai da Natália Starly, de 19 anos, estudante do curso de licenciatura plena em letras-português na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), em Timon, e do Jevan Júnior, de 18 anos, que sonha em cursar direito a partir de 2017, o senhor Jevan Starly através das próprias palavras nos mostrará os resultados grandiosos que a educação pode trazer para a vida de quem se submete a vencer os obstáculos da vida através do estudo.

Teresina registra diariamente uma temperatura climática que varia em torno dos 35 °C, mas na Rua Dr. Area Leão, centro-sul da Capital piauiense, onde pela manhã a sombra fica ao lado do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), e à tarde ao lado da drogaria Big Ben, é nesse local que o mototaxista Jevan Starly trabalha de segunda à sexta, das 7h30 às 17 horas. A rua é a mesma, mas o local exato de encontro a ele varia devido a tão querida sombra dos teresinenses.

Só que o pai da Natália e do Júnior não está lá apenas esperando clientes lhe procurarem ou o celular tocar, pedindo uma corrida, o senhor Jevan Starly aproveita as horas que tudo “está calmo” para revisar as apostilas da universidade, para ler aqueles tantos textos que os estudantes de direito devem ler todos os dias, a fim de obter notas para aprovação e conclusão do curso, como também em busca de passar no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

  • Foto: Lucas Dias/GP1Jevan Starly lendo a apostilaJevan Starly lendo a apostila

“É um ambiente que tem muito barulho, na avenida mais movimentada de Teresina, que é a Avenida Frei Serafim, então eu ‘tou’ estudando aqui, e passa ônibus, passa carro de som, passa manifestação. Às vezes eu ‘tou’ estudando e chega um fumante, e fica aqui do meu lado, fumando. Gente passa conversando, gente passa gritando, então não é um ambiente propício para você estudar, além do calor. Seria o ideal um ambiente calmo, silencioso, um ambiente climatizado, mas graças a Deus eu estou conseguindo vencer essas adversidades. Eu já me acostumei. Quando me concentro no estudo, não tem quem tire minha concentração, só se chegar um cliente (risos)”, disse.

Lembranças

O mototaxista, professor de geografia e bacharel em direito relembrou a vida estudantil. “Eu sou natural de Regeneração, eu estudei até os 18 anos e quando eu vim para Teresina, foi para servir no quartel, no 25º BC [Batalhão de Caçadores]. Quando eu vim para Teresina, eu parei de estudar, e logo em seguida, quando eu sai do quartel, eu me casei (aos 21 anos de idade) e a minha esposa tinha 19, e ‘aí’ o estudo ficou de lado. Eu fui só trabalhar, para criar os filhos porque logo em seguida, aos 21 anos, quando me casei, veio a primeira filha, e logo depois, em 97, veio o segundo filho, e ‘aí’ foi só trabalhar para criar os filhos e o estudo acabou ficando de lado”, recordou.

  • Foto: Lucas Dias/GP1Jevan Starly Macedo Silva mostrando seu CetificadoJevan Starly Macedo Silva mostrando seu Cetificado

Estudante de escola pública, onde cursou parte em Regeneração e outra parte em Teresina, Jevan Starly disse que terminou o ensino médio em 2003. Hoje em 2016 com um curso de graduação e cursando a segunda formação, ele disse de forma orgulhosa, o que lhe motivou a voltar a estudar.

“A minha vida de trabalho mesmo se deu aqui em Teresina, depois que eu saí do quartel, quando fiquei só trabalhando, para criar os filhos, e ‘aí’ quando a minha filha tinha 13 anos de idade, ela ainda ‘tava’ no ensino fundamental, ela me perguntou porque que eu não voltaria estudar. ‘Pai por que você não volta a estudar?’. Eu até dei uma resposta para ela: ‘nam, minha filha, isso aí, eu não tenho mais interesse nisso não’. E ela cobrou novamente: ‘nam, pai, volte a estudar!’”, começou.

2º lugar em Licenciatura Plena em Geografia

“‘Aí’ na segunda palavra que ela me deu, eu refleti um pouco e pensei direito, então eu voltei a estudar pela palavra que ela me deu... no dia seguinte, eu voltei a estudar em casa, e nesse mesmo ano, eu fiz o vestibular da UESPI [Universidade Estadual do Piauí] e fui aprovado no curso de Licenciatura Plena em Geografia no segundo lugar, no campus Clóvis Moura, no Dirceu. Foi concorrência ampla! E nessa ocasião, foi o último vestibular especifico que a UESPI fez.

  • Foto: Lucas Dias/GP1Enquanto não chega cliente, Jevan Starly ler a apostilaEnquanto não chega cliente, Jevan Starly ler a apostila

Daí eu voltei a estudar, e de lá para cá, eu me senti cada vez mais estimulado nos estudos, até porque os meus filhos me deram muita força, a minha esposa também me apoiou, e eu não parei mais, e foi assim quando eu cheguei a lecionar em José de Freitas pelo Estado, num concurso que fiz para professor substituto. O contrato era de dois anos e passei dois anos dando aula lá em José de Freitas”.

“Eu trabalhava de mototaxista nos dias que eu não ia para José de Freitas porque lá eram 3 dias da semana. Os meus finais de semana sempre foi em casa, estudando”, relembrou Jevan Starly.

A rotina na época da UESPI e a atual vida cotidiana, cursando direito é parecida. Ele relatou com entusiasmo os fazeres diários, que mesmo cansativo, como é a vida de qualquer pai de família piauiense, não o estimula a desistir.

Quando cursava geografia na UESPI, Jevan Starly relembra: “a minha rotina era de manhã cedo eu levava os meus filhos para escola, e ‘aí’ quando eu deixava eles lá, eu vinha para o meu trabalho. Chegava aqui em torno de 7h30 e fico o dia todo na rua. Eu almoço na rua. Nem sempre a gente tem tempo [de ir almoçar em casa] por causa da correria da profissão de mototaxista, mas eu passava o dia todo na rua, como ainda hoje passo. Só vou para casa às 17 horas, e aí tomo meu banho, às vezes um lanchinho leve e ia para universidade, e ‘aí’ ficava até às 10 horas da noite. Quando retornava, é que eu ia às vezes comer alguma coisa, e estudar alguma coisa pendente que ficava de assunto lá da universidade”.

“Na época do TCC foi a época mais difícil para mim porque é um trabalho que exige muito do graduando e a gente precisa se dedicar bastante, mesmo com a ajuda do orientador, dos colegas, que a gente fica dando força um para o outro. Ter que se deslocar pro interior, para fazer o trabalho de campo porque o meu trabalho de conclusão de curso foi sobre o agronegócio, isso é difícil, então eu tive que me deslocar para minha cidade natal [Regeneração] porque lá tem a fazenda de soja, a dinâmica da cidade mudou muito em relação com o tempo que eu morava lá”, afirmou.

Com o tema “As novas relações socioespaciais do agronegócio no município de Regeneração”, e sob orientação da professora Drª Manuela Nunes Leal, Jevan Starly conseguiu aprovação no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) com uma nota de 8,5.

Aprovação em direito pelo Prouni

E foi na época que fazia o TCC, que ele recorda: “nesse mesmo ano, em 2014, eu prestei o ENEM para ver o grau que eu tinha adquirido de conhecimento, e ‘aí’ para minha surpresa eu consegui uma nota boa [670 na media], então como eu estudei a vida toda em escola pública, eu consegui uma bolsa pelo Prouni na Faculdade do Piauí [FAPI]”.

“A minha filha inscreveu a minha nota em três faculdades distintas e acabei sendo chamado para estudar na FAPI. Eu não pago nada, ‘né’? Quem paga é o governo porque estudei em escola pública. Tenho uma bolsa de 100% pelo Prouni e faço o 4º período”, relatou Jevan Starly.

“Eu continuo com a mesma rotina. Eu deixo minha filha, hoje como já falei, estuda na UEMA, já está estagiando na escola Dom Bosco, e aí eu deixo ela lá, venho para cá. Chego aqui por volta das 7h30, fico até às 17, vou para casa, tomo meu banho, e aí vou para a faculdade.

Estudar mesmo em casa, o dia todo, é sábado e domingo. Eu tiro o sábado e o domingo para estudar o dia todo e às vezes à noite quando chego da faculdade”.

As duas rotinas

Sobre a rotina diferente dos dois cursos de graduação, Jevan Starly fez a seguinte comparação: “em questão de estudo, o curso de direito em si exige mais do graduando, do universitário, porque é um curso que tem muita informação e até porque o curso de geografia, tanto geografia, história e direito são disciplinas irmãs, como a gente aprende na universidade, elas se completam, mas o curso de direito em si é um curso bastante extenso, bastante intensivo, que exige muito da gente, mas eu não estou sentindo tanta dificuldade porque eu já tenho essa vivência da universidade anterior, da UESPI, do curso de geografia, então apesar de ser um curso que exige bastante da gente, ‘tá’ dando para manter o ritmo, ‘tá’ dando para levar”.

Força para continuar

Em relação à força ao qual possui, para não desistir do sonho de ter uma segunda formação em curso superior, o mototaxista e professor de geografia destacou o incentivo da filha, a realização de sonhos por meio dos estudos e o exemplo que dar aos filhos pelo fato de continuar estudando, mesmo com 42 anos de idade.

  • Foto: Lucas Dias/GP1Jevan Starly Macedo SilvaJevan Starly Macedo Silva

“Na verdade, esse estímulo partiu da minha filha. O início de tudo foi minha filha, com a palavra que ela me deu, me perguntou por que eu não voltava a estudar, e eu me senti mais estimulado ainda depois que aprendi que a universidade é o lugar onde a gente adquire um conhecimento sobre a realidade da vida, das cidades, das pessoas, então com essa vivência que eu tive na universidade, eu me sinto a cada dia mais estimulado. Hoje eu não consigo ficar sem estudar. Eu tenho que ‘tá’ lendo alguma coisa e isso é muito importante porque a leitura é um exercício para mente. Quanto mais você ler, mais você vai ficar antenado nos acontecimentos, em tudo que acontece à sua volta, então eu acho isso bastante importante. O estudo sem dúvida é primordial para o ser humano, para ele crescer na vida. Outro fator que me estimulou e que me faz estudar cada dia mais é que isso influenciou na vida dos meus filhos. O meu filho quando me via estudar, falava: ‘pai, o senhor estuda demais’, porque eu passava o dia todo, no caso, sábado e domingo, trancado no quarto, e isso de certa forma, estimulou ele e hoje ele está focado. Ele sabe o que quer. Ele quer estudar. Então foram esses os fatores”, disse Jevan Starly.

Sonho

Mototaxista desde 2002, regulamentado em 2003 e padronizado desde 2005, o dono da motocicleta que possui a permissão 015, “fui um dos primeiros para conseguir a permissão para trabalhar regulamentado, de acordo com o que a Prefeitura de Teresina estabeleceu para o sistema de mototáxi, que hoje vai do 01 até 2015. Hoje somos 2015 mototaxistas regulamentados”, Jevan Starly finalizou a entrevista deixando uma palavra de incentivo a quem for ler essa matéria.

  • Foto: Lucas Dias/GP1Jevan Starly estudando nas horas vagasJevan Starly estudando nas horas vagas

“Independente do motivo que aconteceu na sua vida, que você deixou de estudar, eu faço como a minha filha, eu aconselho você: ‘volte a estudar’ porque o estudo é muito importante, independente do que aconteceu na sua vida, ou que você acha que vai acontecer, nunca desista dos seus sonhos e para você alcançar os seus sonhos, o estudo é a ferramenta mais importante que a gente tem, e eu percebi isso de 2010 para cá, quando a minha filha me disse aquilo. Até então eu não tinha essa visão, então eu quero dizer para quem for ler essa matéria, que reflita, como eu refleti, e que não deixe de trabalhar porque é difícil trabalhar e estudar, mas é gratificante, vale à pena, e com seu esforço, com a sua dedicação, você pode superar todas as dificuldades. Eu tenho uma formação, estou adquirindo outra formação, mas durante todo esse tempo, eu continuei trabalhando aqui, mesmo com o sol, com o barulho do trânsito, mas estou aqui como mototaxista, e acredito que Deus tem algo preparado para mim, então eu não vou desistir. Enquanto eu tiver saúde, força de vontade, eu vou está estudando, independente de passar em concurso, de passar no que for, eu quero continuar estudando e trabalhando”.

Jevan Starly relatou que hoje tem o sonho de ser aprovado em um concurso público. “Se Deus me permitir passar no exame da Ordem [dos Advogados do Brasil], em ser um bacharel em direito, ser advogado, eu vou quero exercer. Se eu tiver a oportunidade, se tiver as condições de exercer, com certeza eu vou fazer. Eu vou correndo atrás até conseguir”.


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Mototaxista estuda quase dez horas por dia no centro de Teresina
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