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Polícia investiga relação do jogo 'Baleia Azul' com mortes no Brasil

Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso abriram inquérito para apurar as circunstâncias de casos de tentativa de suicídio relacionados ao jogo, que induz os jovens a se lesionarem em troca de cura.

BRUNA VELOSO
O GLOBO

- atualizado

A polícia investiga uma espécie de desafio nas redes sociais que estimularia o suicídio de crianças e adolescentes. O chamado jogo da Baleia Azul teria se originado de um boato disseminado na internet. A rede que controla o “Baleia Azul” obrigaria seus participantes a se machucarem de propósito e pode estar relacionada à morte de pelo menos dois jovens, em Mato Grosso e Minas Gerais, e de tentativas de suicídio.

No Rio de Janeiro, a Polícia Civil apura quatro casos. De acordo com a delegada interina da Repressão aos Crimes de Informática, Fernanda Fernandes, não aconteceram mortes no Rio. Ela investiga a atividade de dois administradores do Baleia Azul, que aliciariam participantes.

“Precisamos ter muito cuidado em vincular casos de suicídio ao jogo. Aparentemente, cada vítima tinha uma espécie de curador, uma pessoa que distribuiria as tarefas” contou a delegada.

O jogo se trata de uma troca de mensagens entre os aliciadores e os adolescentes e teria origem na Rússia. Segundo o presidente da SaferNet Brasil, Thiago Tavares, ele começou com uma notícia falsa.

“Existem fortes indícios de que esse jogo começou com uma fake news veiculada por uma agência de notícias da Rússia. É possível que o jogo tenha passado a existir depois da notícia falsa e produziu efeitos que não são falsos”, afirmou Tavares.

O caso de uma menina do Rio mostra que os administradores do jogo se aproveitam da fragilidade dos jovens. Moradora da Zona Oeste, Mariana (nome fictício), de apenas 15 anos, conta que passou a achar que a mãe não a amava. Ela começou a seguir as orientações dadas pelo “curador” do Baleia Azul. A mãe de Mariana, porém, descobriu a tempo o jogo e impediu que a filha continuasse.

“Peço a quem tiver vontade de entrar no Baleia Azul que não faça isso. Só vai causar coisas ruins e aumentar a tristeza. Não será um jogo que acabará com a dor. Hoje sei que preciso apostar no meu futuro”, disse a menina.

Mariana foi internada num hospital da zona Oeste do Rio para se recuperar, após largar o jogo, mas chegou a tentar o suicídio depois de deixar o hospital. Ela conta que desistiu quando percebeu o sofrimento da mãe. A jovem diz que ainda sente depressão, mas voltou a se tratar e agora sonha em ser fotógrafa ou médica.

Em outro caso investigado no Rio, a mãe de um menino de 12 anos denunciou à polícia que o filho teria recebido um desafio, mas conseguiu impedi-lo a tempo de entrar no jogo. Em outro, uma menina, também adolescente, teria tentado se matar.

Em Minas Gerais, a polícia investiga o caso de um garoto de 19 anos, encontrado morto no último dia 12, em Pará de Minas, no centro-oeste do estado. O celular do jovem já foi periciado e as autoridades aguardam o resultado do laudo.

Em Mato Grosso, foi instaurado um inquérito para apurar a morte de uma adolescente de 16 anos, encontrada numa represa de Vila Rica. De acordo com as autoridades, a mãe da jovem teria identificado cortes nos braços da vítima há cerca de dois meses. Ela também entregou à polícia duas cartas escritas a mão pela filha. Os investigadores aguardam ainda o resultado da perícia no celular da jovem.

PERFIL DAS VÍTIMAS

Os jogadores costumam seguir um mesmo perfil. São adolescentes, a partir de 12 anos, com tendência à depressão, na maioria das vezes aliciados nas redes sociais, onde recebem suas missões dos administradores, também chamados de curadores. Se relutarem em cumprir as ordens e manifestarem a vontade de sair do jogo, começam a ser ameaçados. Como têm acesso ao perfil dos participantes em sites de relacionamentos, os administradores pressionam os jovens.

De acordo com a polícia, esses aliciadores podem responder a diversos crimes como associação criminosa e responsabilidade por lesão corporal promovida pelos participantes do jogo, além de tentativa de homicídio.

O psiquiatra Gabriel Bessa atendeu uma jovem que teria participado do desafio. Segundo ele, a mãe teria percebido uma atitude incomum na rotina da filha e conseguiu evitar a tempo a conclusão do desafio. Ele chama atenção para necessidade de que as famílias estejam atentas:

“Os pais devem ficar atentos ao que os filhos fazem na internet. Os adolescentes são muito mais vulneráveis porque ainda estão se formando, a confusão de pensamentos é muito maior. Se a família perceber alguma mudança no comportamento, deve procurar ajuda o mais breve possível, não esconder. Muitas vezes, o preconceito em volta disso acaba agravando o quadro”, disse.

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