"Somente na hora da nossa morte é que a vida, nesse momento indecifrável, ambíguo, quase suspenso, adquire um significado", disse Pier Paolo Pasolini numa entrevista, em 1967. A ideia de que a morte define uma pessoa poucas vezes foi descrita de maneira mais vívida do que no caso do cineasta, cuja vida e obras extraordinárias são vistas invariavelmente através do prisma de sua morte horrível.
Desfigurado, o corpo massacrado, ele foi encontrado em um bosque em Ostia, o antigo porto de Roma, em 1975. O suposto assassino (que mais tarde voltou atrás de sua confissão) foi um garoto de programa de 17 anos que ele encontrara na área da estação ferroviária da capital.
Segundo seu colega Michelangelo Antonioni, Pasolini se tornou "vítima de seus próprios personagens". Concluído semanas antes de sua morte, aos 53 anos, o último filme de Pasolini, Salò, ou os 120 dias de Sodoma, uma adaptação brutal e implacável do catálogo de degradações e torturas do Marquês de Sade, passou a ser visto simplesmente como um desejo de morte. Entretanto, em outro sentido crucial, a importância de Pasolini continua indecifrável, ambígua, quase suspensa.
Católico, ele repudiou a própria fé, mas jamais abandonou uma visão de mundo religiosa. Desde sempre marxista, expulso do Partido comunista por ser gay, Pasolini foi um artista e um pensador que não tentou resolver as próprias contradições, mas antes encarná-las por completo. Com um dom pela polêmica e o gosto pelo escândalo, era rotineiramente acusado nos tribunais de blasfêmia e obscenidade, e atacado tanto pela direita quanto pela esquerda.
Os filmes que lhe proporcionaram reconhecimento internacional são tema de uma retrospectiva neste começo de ano no Museu de Arte Moderna de Nova York, mas constituem apenas uma parte de sua obra. Para muitos italianos, Pasolini foi acima de tudo um poeta. Também escreveu romances e peças, pintava, compunha músicas e publicou inúmeros comentários políticos e ensaios sobre teoria literária.
A série exibida pelo museu é complementada por um recital de poesia e música, discussões e outros eventos, tanto no Museu de Arte Moderna quanto no MoMA PS1, localizado no Queens. Da mesma forma, uma mostra de quadros de autoria de Pasolini ocupou, em dezembro, a galeria Location One no SoHo.
Evocando a multiforme e febril produção artística de Pasolini, estes eventos demonstram de maneira implícita que é difícil considerar qualquer uma de suas obras isoladamente.
"Particularmente árduo é defini-lo com um rótulo", disse Jytte Jensen, a curadora que organizou a retrospectiva. "Ele exerceu vários papéis essenciais na sociedade italiana, sempre explorando, completamente aberto a diferentes maneiras de olhar as coisas, sem ter medo de reconhecer se estava errado."
As primeiras realizações de Pasolini, Accattone (1961) e Mamma Roma (1962), filmes rodados nos bairros pobres de Roma e interpretados por atores não profissionais, seguiam as pegadas dos neorrealistas italianos, que consideravam a vida dos marginalizados digna de ser vista pelo prisma da arte. Mas suas imagens iam além de um áspero naturalismo para incorporar aspectos do sagrado e do erótico. Pasolini passou da literatura para o cinema por considerá-lo uma forma flexível de expressão, uma linguagem que, como dizia, "escreve a realidade com a realidade". Do mesmo modo que escrevia poesia e ficção numa variedade de dialetos, seus filmes circulavam por uma variedade de estilos e tons. As reações à sua obra foram frequentemente contrastantes, raras vezes previsíveis.
O Evangelho segundo Mateus (1964), um retrato reverente de um Jesus revolucionário, agradou aos cristãos e aos marxistas. O pouco apreciado Porcile (1969), alegoria sobre os impasses da ideologia e uma comédia de humor negro sobre o canibalismo e a bestialidade, não estava em sintonia com o intenso radicalismo da época. Não agradou praticamente a ninguém, e muito menos aos estudantes ativistas que Pasolini denunciava como elitistas (ele se colocava do lado da polícia enquanto classe trabalhadora). Além dos seus longas-metragens, a retrospectiva dá igual destaque aos seus curtas e documentários, que frequentemente oferecem um vislumbre direto de sua atitude intelectual. Em Love Meetings (1964), Pasolini viaja pelo país gravando os depoimentos de pessoas de todas as idades e graus de conhecimento sobre seu comportamento e atitudes sexuais. Anotações para uma Oresteia Africana (1970) descreve seu projeto de dirigir um filme sobre o mito de Ésquilo na África pós-colonial.
Pasolini inicialmente classificou suas irreverentes adaptações medievais - Decameron (1971), Contos de Canterbury (1972) e Noites da Arábia (1974) coletivamente chamadas a Trilogia da Vida, que acaba de sair em DVD pela Criterion - como obras apolíticas, no entanto, mais tarde, as proclamou celebrações radicais do prazer carnal. Mas quando sua popularidade produziu numerosas imitações obscenas, ele reviu sua opinião mais uma vez e publicou uma "abjuração" da trilogia.
O fio condutor que une mais claramente os filmes de Pasolini é sua crescente aversão pelo mundo moderno. Ele via o boom econômico da Itália do pós-guerra como um flagelo irreversível, que transformava os indivíduos em consumidores irracionais, destruindo as culturas locais.
Para Pasolini as diferenças culturais deviam sempre ser protegidas e destacadas. Seu desprezo pela burguesia italiana manifestou-se como uma forma de crítica (em Teorema e Porcile) e como uma fuga para a antiguidade e o mito, em que o passado às vezes servia de janela para o presente, adaptando Édipo Rei e Medeia).
O desespero de Pasolini atinge o seu ponto final (em todos os sentidos) em Salò, que transpõe Sade para a Itália de Mussolini, equaciona o consumismo ao fascismo e se esforça para ser o que ele chamou de um filme "indigesto", que resiste absolutamente à mercantilização - não é difícil imaginar como Pasolini reagiria à incongruência cômica das séries do MoMA que têm Gucci como patrocinador.
Embora não tenha equivalente no panorama contemporâneo, Pasolini preparou o caminho para muitos realizadores, como Rainer Werner Fassbinder, Derek Jarman, Gus Van Sant e Abel Ferrara. O poder de suas ideias e o mistério do seu assassinato (que alguns acreditam tenha tido uma motivação política) conquistaram a imaginação de inúmeros escritores e artistas. Sua morte também se tornou tema de obras como o docudrama Quem Matou Pasolini?, de Marco Tullio Giordana, ou a instalação Alfa Romeo GT Veloce 1975-2007, de Elisabetta Benassi, que evoca a cena do crime com uma reprodução do carro de Pasolini. Como pós-escrito à mostra do MoMA, a UnionDocs exibirá em Williamsburg, Brooklyn, no dia 13, dois filmes ensaios sobre o legado do autor: Cinzas de Pasolini, de Alfredo Jaar, e As Últimas Palavras de Pasolini, de Cathy Lee Crane.
Nas duas próximas semanas todas as exibições do MoMA começarão com um clipe de Pasolini discutindo o filme a ser mostrado. Segundo Jensen, estas apresentações pessoais coadunam-se com o caráter imediato da sua obra. "Quando o espectador assiste a um filme de Pasolini", ela diz, "tem a sensação de que o realizador está falando com ele".
Desfigurado, o corpo massacrado, ele foi encontrado em um bosque em Ostia, o antigo porto de Roma, em 1975. O suposto assassino (que mais tarde voltou atrás de sua confissão) foi um garoto de programa de 17 anos que ele encontrara na área da estação ferroviária da capital.
Imagem: Dvulgação
Pier Paolo Pasolini
Pier Paolo PasoliniSegundo seu colega Michelangelo Antonioni, Pasolini se tornou "vítima de seus próprios personagens". Concluído semanas antes de sua morte, aos 53 anos, o último filme de Pasolini, Salò, ou os 120 dias de Sodoma, uma adaptação brutal e implacável do catálogo de degradações e torturas do Marquês de Sade, passou a ser visto simplesmente como um desejo de morte. Entretanto, em outro sentido crucial, a importância de Pasolini continua indecifrável, ambígua, quase suspensa.
Católico, ele repudiou a própria fé, mas jamais abandonou uma visão de mundo religiosa. Desde sempre marxista, expulso do Partido comunista por ser gay, Pasolini foi um artista e um pensador que não tentou resolver as próprias contradições, mas antes encarná-las por completo. Com um dom pela polêmica e o gosto pelo escândalo, era rotineiramente acusado nos tribunais de blasfêmia e obscenidade, e atacado tanto pela direita quanto pela esquerda.
Os filmes que lhe proporcionaram reconhecimento internacional são tema de uma retrospectiva neste começo de ano no Museu de Arte Moderna de Nova York, mas constituem apenas uma parte de sua obra. Para muitos italianos, Pasolini foi acima de tudo um poeta. Também escreveu romances e peças, pintava, compunha músicas e publicou inúmeros comentários políticos e ensaios sobre teoria literária.
A série exibida pelo museu é complementada por um recital de poesia e música, discussões e outros eventos, tanto no Museu de Arte Moderna quanto no MoMA PS1, localizado no Queens. Da mesma forma, uma mostra de quadros de autoria de Pasolini ocupou, em dezembro, a galeria Location One no SoHo.
Evocando a multiforme e febril produção artística de Pasolini, estes eventos demonstram de maneira implícita que é difícil considerar qualquer uma de suas obras isoladamente.
"Particularmente árduo é defini-lo com um rótulo", disse Jytte Jensen, a curadora que organizou a retrospectiva. "Ele exerceu vários papéis essenciais na sociedade italiana, sempre explorando, completamente aberto a diferentes maneiras de olhar as coisas, sem ter medo de reconhecer se estava errado."
As primeiras realizações de Pasolini, Accattone (1961) e Mamma Roma (1962), filmes rodados nos bairros pobres de Roma e interpretados por atores não profissionais, seguiam as pegadas dos neorrealistas italianos, que consideravam a vida dos marginalizados digna de ser vista pelo prisma da arte. Mas suas imagens iam além de um áspero naturalismo para incorporar aspectos do sagrado e do erótico. Pasolini passou da literatura para o cinema por considerá-lo uma forma flexível de expressão, uma linguagem que, como dizia, "escreve a realidade com a realidade". Do mesmo modo que escrevia poesia e ficção numa variedade de dialetos, seus filmes circulavam por uma variedade de estilos e tons. As reações à sua obra foram frequentemente contrastantes, raras vezes previsíveis.
O Evangelho segundo Mateus (1964), um retrato reverente de um Jesus revolucionário, agradou aos cristãos e aos marxistas. O pouco apreciado Porcile (1969), alegoria sobre os impasses da ideologia e uma comédia de humor negro sobre o canibalismo e a bestialidade, não estava em sintonia com o intenso radicalismo da época. Não agradou praticamente a ninguém, e muito menos aos estudantes ativistas que Pasolini denunciava como elitistas (ele se colocava do lado da polícia enquanto classe trabalhadora). Além dos seus longas-metragens, a retrospectiva dá igual destaque aos seus curtas e documentários, que frequentemente oferecem um vislumbre direto de sua atitude intelectual. Em Love Meetings (1964), Pasolini viaja pelo país gravando os depoimentos de pessoas de todas as idades e graus de conhecimento sobre seu comportamento e atitudes sexuais. Anotações para uma Oresteia Africana (1970) descreve seu projeto de dirigir um filme sobre o mito de Ésquilo na África pós-colonial.
Pasolini inicialmente classificou suas irreverentes adaptações medievais - Decameron (1971), Contos de Canterbury (1972) e Noites da Arábia (1974) coletivamente chamadas a Trilogia da Vida, que acaba de sair em DVD pela Criterion - como obras apolíticas, no entanto, mais tarde, as proclamou celebrações radicais do prazer carnal. Mas quando sua popularidade produziu numerosas imitações obscenas, ele reviu sua opinião mais uma vez e publicou uma "abjuração" da trilogia.
O fio condutor que une mais claramente os filmes de Pasolini é sua crescente aversão pelo mundo moderno. Ele via o boom econômico da Itália do pós-guerra como um flagelo irreversível, que transformava os indivíduos em consumidores irracionais, destruindo as culturas locais.
Para Pasolini as diferenças culturais deviam sempre ser protegidas e destacadas. Seu desprezo pela burguesia italiana manifestou-se como uma forma de crítica (em Teorema e Porcile) e como uma fuga para a antiguidade e o mito, em que o passado às vezes servia de janela para o presente, adaptando Édipo Rei e Medeia).
O desespero de Pasolini atinge o seu ponto final (em todos os sentidos) em Salò, que transpõe Sade para a Itália de Mussolini, equaciona o consumismo ao fascismo e se esforça para ser o que ele chamou de um filme "indigesto", que resiste absolutamente à mercantilização - não é difícil imaginar como Pasolini reagiria à incongruência cômica das séries do MoMA que têm Gucci como patrocinador.
Embora não tenha equivalente no panorama contemporâneo, Pasolini preparou o caminho para muitos realizadores, como Rainer Werner Fassbinder, Derek Jarman, Gus Van Sant e Abel Ferrara. O poder de suas ideias e o mistério do seu assassinato (que alguns acreditam tenha tido uma motivação política) conquistaram a imaginação de inúmeros escritores e artistas. Sua morte também se tornou tema de obras como o docudrama Quem Matou Pasolini?, de Marco Tullio Giordana, ou a instalação Alfa Romeo GT Veloce 1975-2007, de Elisabetta Benassi, que evoca a cena do crime com uma reprodução do carro de Pasolini. Como pós-escrito à mostra do MoMA, a UnionDocs exibirá em Williamsburg, Brooklyn, no dia 13, dois filmes ensaios sobre o legado do autor: Cinzas de Pasolini, de Alfredo Jaar, e As Últimas Palavras de Pasolini, de Cathy Lee Crane.
Nas duas próximas semanas todas as exibições do MoMA começarão com um clipe de Pasolini discutindo o filme a ser mostrado. Segundo Jensen, estas apresentações pessoais coadunam-se com o caráter imediato da sua obra. "Quando o espectador assiste a um filme de Pasolini", ela diz, "tem a sensação de que o realizador está falando com ele".
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