A manhã do dia 28 de outubro ficará marcada na história política de Teresina como o instante em que o médico que virou prefeito viu sua biografia ser posta na maca. A Câmara Municipal , com a frieza de um bisturi, reprovou as contas de Dr. Pessoa referentes aos exercícios de 2022 e 2023 e, com isso, decretou-lhe a inelegibilidade. Foi o golpe final em uma trajetória que, desde o início, oscilou entre o improviso e a tragédia.
O Tribunal de Contas já havia soado o alarme: irregularidades na gestão, desvios administrativos, descontrole orçamentário. Faltava apenas a chancela política e ela veio, com o peso dos votos da Câmara. As contas de 2021, aprovadas com ressalvas, soam agora como um último suspiro de clemência institucional a um gestor que parecia não compreender a liturgia do cargo que ocupava.
Mas a derrocada de Dr. Pessoa não nasceu de um parecer técnico. Ela foi construída, tijolo a tijolo, dentro da própria casa que ele ergueu no Palácio da Cidade. Os corredores da prefeitura já sussurravam há tempos o que agora se tornou manchete: o gabinete do prefeito havia virado uma praça de negócios, um balcão onde favores públicos eram convertidos em patrimônios privados.
A prisão de Suelene Pessoa, ex-chefe de gabinete e figura de confiança do prefeito desde os tempos de clínica no Lourival Parente, foi o primeiro tremor. Amiga de longa data, Suelene fez do cargo uma extensão de sua conta bancária. A operação “Gabinete de Ouro”, que revelou o esquema de “rachadinhas” e vantagens indevidas, trouxe à tona um enredo digno de novela política, com direito a mansões, construtoras generosas e presentes milionários.
Ainda veio Mauro José de Sousa, ex-motorista e outro personagem de um enredo que misturava fidelidade pessoal e interesse financeiro. O colapso moral do governo foi se tornando evidente à medida que o círculo íntimo do prefeito se via às voltas com mandados de busca e conduções coercitivas.
Ainda antes, um golpe mais duro: a voz de Robert Rios, ex-vice e ex-secretário de Finanças, ecoando pelos corredores do Ministério Público. “A roubalheira era regra”, disse ele. Foi uma frase que cortou o ar político de Teresina como uma navalha. Segundo Rios, a Secretaria de Educação e a Fundação Municipal de Saúde foram os epicentros de um desmonte ético. Empresas fantasmas, listas de pagamentos que passavam pela triagem familiar, ordens que teriam partido diretamente do filho do prefeito, o conhecido “Pessoinha”.
O relato de Rios, mais do que denúncia, soou como confissão de quem participou do jogo e, agora, quer se desvincular dele. As listas de pagamentos “autorizadas” pelo herdeiro do poder municipal, conforme dito pelo ex-vice, transformaram a prefeitura em uma espécie de feudo doméstico.
A defesa, previsivelmente, reagiu com o argumento clássico da política brasileira: “problema pessoal”. João Duarte Pessoa, o filho, negou as acusações e tentou reduzir a gravidade dos fatos a uma intriga de bastidores. O mesmo roteiro de sempre, mas, desta vez, o enredo parece ter ido longe demais.
Nos cafés da zona Leste e nas conversas discretas da Câmara, há quem diga que Dr. Pessoa nunca entendeu o que o cercava. Que foi manipulado, iludido, explorado por quem via na simplicidade do médico um passaporte para a impunidade. Talvez. Mas há uma diferença entre ser ingênuo e ser cúmplice por omissão. E, no jogo da política, a ingenuidade também é uma forma de culpa.
Dr. Pessoa fez da autenticidade um escudo, do vocabulário provinciano um charme político, e da figura de “homem simples” um instrumento de aproximação popular. Mas o que começou como símbolo de humildade terminou como caricatura. Quando a honestidade precisa ser reafirmada em cada frase, é sinal de que o público já não acredita mais nela.
Hoje, entre as ruínas de sua gestão, restam as perguntas: Dr. Pessoa foi o arquiteto do próprio infortúnio ou a vítima de um cerco ardiloso montado por aliados de ocasião? Difícil saber. O que se sabe é que o poder, quando mal administrado, é como um remédio tomado em dose errada, cura por fora, envenena por dentro.
Nos corredores da prefeitura, o silêncio agora é de luto político. E Teresina, que já teve prefeitos de perfil técnico e políticos de vocação, vê no episódio de Dr. Pessoa um espelho da sua própria desilusão: o voto da esperança transformado em receita de escândalo.
O médico que prometia cuidar da cidade acabou diagnosticado pela história e a história, como se sabe, não prescreve remédios para o ego.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1