Durante o desfile de 7 de Setembro , em Teresina, houve quem prestasse mais atenção ao público do que às tropas. Entre os carros de combate e as bandas militares, quem roubou a cena foi o ex-coordenador do Draco, delegado Charles Pessoa . Sua presença atraiu olhares, flashes e uma pequena multidão que se amontoou para tirar fotos. Ao final, cercado por admiradores, Charles teve dificuldade para deixar a Avenida Marechal Castelo Branco, uma cena que, para os mais atentos, diz mais sobre o momento político do que qualquer discurso oficial.
Instigado por esta colunista sobre uma possível candidatura a deputado federal, Charles respondeu com a sua já conhecida prudência: “o foco é a segurança pública e o combate às facções no estado”. Insisti. Ele manteve o tom. E, ainda que tenha se esquivado com a maestria de um delegado habituado a dar entrevistas, a impressão que deixou foi a de que sua resposta já estava dada, basta saber lê-la nas entrelinhas.
No meio da multidão, resolvi questionar alguns dos presentes, de maneira descontraída, se votariam em Charles para deputado federal. A resposta foi quase unânime: a população prefere que ele continue como delegado, exercendo seu trabalho na segurança pública, e não se envolva diretamente na política. Essa percepção deixa claro que, embora admirado, seu capital político ainda está mais ligado à imagem de gestor da segurança do que ao pleito eleitoral.
O Código Eleitoral é claro: delegados que desejam disputar as urnas devem se afastar um ano antes do pleito, mas não precisam largar a função. Podem continuar trabalhando, desde que fora de cargos de comando. Nesse caso, a dúvida que paira é outra: se a atuação de Charles foi eficiente à frente do Draco, por que retirá-lo da linha de frente para palestras e outras funções de bastidor? Seria um movimento estratégico para preservar sua imagem e “descontaminá-lo” de conflitos operacionais até 2026? Ou apenas uma forma de garantir que continue sendo uma figura pública em evidência, mas sem o desgaste diário?
O histórico político piauiense mostra que, em muitos casos, o silêncio é parte da estratégia. O próprio ministro da Educação, Washington Bandeira , passou meses negando que deixaria a secretaria estadual para compor a chapa do governo estadual, até que, aos poucos, foi ajustando o discurso, preparando o terreno, até assumir oficialmente que foi convidado pelo governador Rafael Fonteles para "uma missão política", mesmo que ainda não tenha deixado claro. O script é conhecido: negar enquanto o tabuleiro se movimenta e só anunciar quando as peças já estão bem posicionadas.
A popularidade de Charles é inegável, e o 7 de Setembro deixou isso evidente. Mas a popularidade de rua nem sempre se traduz em votos. O desafio é transformar admiração em mobilização política, aplausos em capital eleitoral. O delegado já tem a imagem de “exterminador de faixa rosa”, respeitado por sua atuação contra o crime organizado. Falta saber se o eleitor estará disposto a apertar o botão da urna para fazer do delegado Charles Pessoa o deputado Charles Pessoa.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1