Já vi esse filme muitas vezes. Denúncia de corrupção, superfaturamento, gasto milionário sem transparência, contrato suspeito com empresa recém-criada — e o governo simplesmente finge que nada aconteceu. Nem uma nota oficial, nem uma explicação, nem um dado. Apenas silêncio. Como se ignorar a realidade fosse um antídoto contra a crise.

Acredite, eu já trabalhei em campanhas e vi de dentro o medo que muitos gestores têm da comunicação em tempos difíceis. “Se a gente comentar, vai dar mais repercussão.” “É melhor deixar a poeira baixar.” “Vamos seguir postando coisas positivas.”

Só que isso não é estratégia — é covardia institucional.

Como analista de marketing político, posso afirmar com clareza: a pior resposta diante de uma crise é a ausência de resposta . Porque o silêncio não protege. Ele acusa.

Em 2020, acompanhei um caso clássico: um governo estadual foi denunciado por contratos milionários sem licitação com empresas ligadas a aliados políticos. A imprensa local repercutiu. O Tribunal de Contas pediu explicações. A oposição gritou. E o que fez o governo? Nada. Fingiu que era invenção da oposição. Passou dias em silêncio, esperando o assunto “morrer”.

Morreu? Não. Viralizou. Se espalhou nos grupos de WhatsApp. Virou meme. Virou desconfiança. E meses depois, virou desgaste eleitoral.

Sem anúncio no momento

O silêncio, nesse caso, custou caro — porque onde falta narrativa oficial, nasce a narrativa adversária .

Já vi também um prefeito do interior que teve a chance de se explicar publicamente sobre o atraso de salários de servidores. Ele tinha argumentos técnicos, jurídicos, até boa justificativa. Mas preferiu ignorar a imprensa e continuar postando selfie de obra. A resposta? Protesto na porta da prefeitura e a hashtag #PagueMeuSalário estampada nos comentários das redes sociais dele.

Não adiantou esconder: as redes sociais não respeitam o silêncio. Elas amplificam o que está mal explicado .

No fundo, o problema está na forma como muitos governos veem a comunicação institucional: como propaganda, e não como serviço público. Só querem falar quando têm o que vender — e se calam quando têm o que explicar.

Só que em tempos de transparência, a sociedade não quer mais só propaganda. Quer prestação de contas.

O silêncio, nesse contexto, é um erro de marketing, um erro de gestão e, acima de tudo, um erro moral .

Por isso, quando vejo governos ignorando questionamentos legítimos sobre gastos suspeitos, diárias internacionais, aditivos milionários, superfaturamento de obras mal explicadas, eu me pergunto: Será que eles acham mesmo que o povo esquece? Será que acreditam que basta continuar sorrindo na propaganda pra ninguém perceber o cheiro de coisa errada?

A verdade é que a reputação de um governo não se mede apenas pelas obras que entrega, mas também pelas crises que enfrenta — e pela forma como responde a elas.

Quem se esconde da verdade, perde autoridade.

E quem cala diante da denúncia, grita culpa em silêncio.

José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário, escritor e palestrante, abordando atualmente o tema: “Narciso, a cultura do espelho”, título de seu novo livro, com lançamento previsto para outubro de 2025. Possui MBA em Gestão, Empreendedorismo e Marketing; pós-graduação em Gestão, Governança e Setor Público; pós-graduação em Novas Tecnologias, Transformação Digital e Agilidade; pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia; e pós-graduação em Comunicação Eleitoral e Marketing Político. Escreve  às segundas-feiras no Portal GP1.

E-mail: consultor@xconexoes.com.br.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1