Toda estrutura de poder produz algo além de decisões, obras, cargos e discursos. Ela produz incentivos. E, entre todos eles, existe um dos mais poderosos: o medo de discordar.
Não se trata do medo da prisão. Não se trata da censura explícita. Nas democracias modernas, o silêncio raramente é imposto pela força. Ele costuma ser construído de maneira muito mais sofisticada.
O poder raramente precisa mandar alguém calar a boca.
Com o tempo, as pessoas aprendem sozinhas quais opiniões abrem portas e quais opiniões fecham portas.
Aprendem quem recebe convites e quem deixa de recebê-los.
Quem é promovido e quem é esquecido.
Quem é prestigiado e quem passa a ser tratado como problema.
É assim que nasce uma das formas mais eficientes de controle político: quando ninguém precisa dar a ordem, porque todos já conhecem as consequências.
O governador indica cargos. O prefeito nomeia aliados. Secretários escolhem assessores. Isso faz parte da dinâmica natural da política. Governos precisam de pessoas de confiança para executar seus projetos.
O problema começa quando a confiança deixa de significar competência e passa a significar obediência.
Quando a lealdade deixa de ser institucional e passa a ser pessoal.
Quando a gratidão pelo cargo se transforma em incapacidade de criticar.
Nesse momento, a consciência entra em conflito com a conveniência.
A pessoa percebe o erro, mas permanece em silêncio.
Discorda internamente, mas concorda publicamente.
Vê desperdícios, falhas ou decisões questionáveis, mas decide não criar desgaste.
Não porque acredita que tudo está certo.
Mas porque sabe que a discordância pode custar caro.
Pode custar um cargo.
Pode custar uma nomeação futura.
Pode custar influência.
Pode custar acesso.
Pode custar oportunidades.
E quase ninguém gosta de pagar esse preço.
Mas o fenômeno não se limita aos ocupantes de cargos públicos.
Ele se espalha.
O empresário que depende de contratos governamentais aprende a ser cauteloso.
O fornecedor evita críticas.
O líder comunitário teme perder apoio institucional.
O servidor teme represálias na carreira.
O comunicador teme perder verbas publicitárias.
O aliado teme perder espaço político.
Até o cidadão comum, muitas vezes, evita contrariar o grupo ao qual pertence.
Pouco a pouco, forma-se uma cultura silenciosa de conformidade.
Todos enxergam os problemas.
Poucos estão dispostos a falar sobre eles.
E é nesse ponto que surge uma das maiores ilusões da vida pública: a ilusão da unanimidade.
Parece que todos concordam.
Parece que não existem erros.
Parece que não existem críticas.
Parece que o governo, o grupo ou a liderança caminham sem contestação.
Mas unanimidade quase nunca é prova de excelência.
Frequentemente, é apenas um sintoma de medo.
A história mostra que grandes fracassos políticos, administrativos e econômicos raramente aconteceram porque ninguém percebeu os problemas.
Na maioria das vezes, os problemas foram percebidos muito antes.
Alguém viu.
Alguém alertou.
Alguém discordou.
Mas a pressão para permanecer calado falou mais alto.
Antes de uma obra que se torna escândalo, houve silêncio.
Antes de uma política pública fracassada, houve silêncio.
Antes do desperdício de recursos, houve silêncio.
Antes da crise, houve silêncio.
O silêncio é quase sempre o primeiro estágio do erro coletivo.
Por isso, sociedades verdadeiramente livres não são aquelas em que todos concordam.
São aquelas em que as pessoas podem discordar sem medo.
Onde a crítica não é confundida com traição.
Onde o questionamento não é tratado como inimizade.
Onde apontar falhas não significa torcer contra.
A democracia não depende apenas de eleições.
Ela depende da existência de cidadãos, servidores, jornalistas, empresários e lideranças capazes de dizer aquilo que precisa ser dito, mesmo quando isso desagrada quem está no poder.
Porque governos precisam de apoiadores.
Mas precisam ainda mais de pessoas dispostas a apontar seus erros.
O aplauso conforta.
A crítica corrige.
E nenhuma administração, por mais competente que seja, consegue melhorar quando todos ao seu redor aprendem a concordar.
O verdadeiro teste de um governante não está na quantidade de elogios que recebe.
Está na forma como reage às críticas.
E o verdadeiro teste de uma sociedade não está na capacidade de seguir líderes.
Está na coragem de questioná-los.
Porque toda vez que alguém escolhe o silêncio para proteger sua posição, um pedaço da verdade deixa de chegar ao debate público.
E quando o medo de discordar se torna maior do que o compromisso com a verdade, não é apenas a liberdade de expressão que enfraquece.
É a própria democracia.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.
E-mail: t.j@uol.com.br
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1