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Colunista Marcelle Furtado
Fisioterapeuta. Sua coluna tem foco na “Saúde em Movimento” e aborda cuidados, prevenção e bem-estar físico.
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A dor não tira férias, e a fisioterapia baseada em ciência também não

Na prática clínica da fisioterapia moderna, sabemos que dor crônica não é sinal de fraqueza.

Durante as festas de fim de ano, pessoas que convivem com dor crônica seguem enfrentando algo que não entra em recesso: o esforço diário de manejar sintomas físicos, emocionais e sociais. E, infelizmente, as falas inoportunas também costumam aparecer nesse período.

Na prática clínica da fisioterapia moderna, sabemos que dor crônica não é sinal de fraqueza, falta de esforço ou ausência de tratamento. Ela é uma condição complexa, multifatorial e modulada pelo sistema nervoso, que envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais, exatamente como descreve o modelo biopsicossocial amplamente aceito pela ciência atual. Quando esse entendimento não existe, palavras podem machucar mais do que a própria dor.

Palpites no tratamento: por que isso dói mais do que ajuda

Perguntas como “você já tentou o tratamento X?” ou “conheço alguém que melhorou fazendo isso” costumam parecer ajuda, mas na perspectiva da fisioterapia baseada em evidências, essas falas desconsideram três pontos fundamentais:

1. Dor crônica não responde a soluções universais, cada paciente possui uma história clínica, sensibilização do sistema nervoso, contexto emocional e resposta individual ao movimento.

2. Tratamento não é tentativa aleatória, intervenções eficazes são construídas com avaliação criteriosa, progressão segura de carga, educação em dor, exposição gradual ao movimento e acompanhamento contínuo.

3. Sugestões não solicitadas geram pressão e culpa, o paciente passa a sentir que “não fez o suficiente”, quando, na verdade, muitas vezes já está em acompanhamento multidisciplinar há anos.

Na fisioterapia da dor, sabemos que o excesso de cobrança aumenta estresse, ansiedade e vigilância corporal, fatores que amplificam a percepção dolorosa.

- “Você precisa se distrair” ou “nem parece que sente dor”

Essas falas ignoram um princípio básico da neurociência da dor:

- Dor crônica não depende da aparência, do humor ou da roupa.

O paciente pode estar maquiado, bem vestido e sorrindo, e ainda assim conviver com:

● hipersensibilidade do sistema nervoso,
● fadiga central,
● medo do movimento,
● flutuações intensas de sintomas.

A fisioterapia atual reconhece que dor não é proporcional ao dano tecidual e não desaparece com força de vontade ou distração.

Ela exige manejo ativo, educação, movimento progressivo e acolhimento, não minimização.

Comparações que invalidam a dor

Frases como “tem gente em situação pior” vão contra tudo o que a ciência da dor ensina. Não existe hierarquia de sofrimento. Não existe “dor pequena” quando o sistema nervoso está sensibilizado.

Cada pessoa:

● percebe a dor de forma única,
● responde ao movimento de maneira diferente,
● possui limites próprios naquele momento do tratamento.

Na prática fisioterapêutica, a comparação gera retração, abandono do cuidado e perda de confiança, o que melhora adesão ao tratamento é validação, segurança e relação terapêutica.

Como conversar com alguém que vive com dor crônica (visão da fisioterapia)

A fisioterapia moderna entende que participar de eventos sociais já é, muitas vezes, uma exposição terapêutica importante. Estar presente exige gasto físico e emocional enorme.

Por isso, o cuidado real está em:

● perguntar “como posso te apoiar agora?”
● respeitar pausas e limites,
● entender que movimento e descanso fazem parte do tratamento,
● aceitar o silêncio quando ele é necessário.

Nem toda dor precisa ser resolvida naquele momento, na maioria das vezes, o que regula o sistema nervoso é segurança, escuta e ausência de julgamento.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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