Fumar, estar acima do peso, não se exercitar, dormir mal e viver estressado podem alimentar a dor nas costas tanto quanto qualquer problema visto na ressonância. Entenda por que cuidar só da coluna pode não ser suficiente.

Você já deve ter visto isso acontecer com alguém, ou talvez tenha vivido isso na própria pele. A pessoa sente dor nas costas, vai ao médico, faz uma ressonância e o resultado mostra uma hérnia de disco ou um “desgaste” na coluna. Ali, parece que o mistério foi resolvido: “achei o motivo da minha dor”.

Só que a ciência mostra uma coisa que costuma surpreender bastante gente: na maioria dos casos, não é possível dizer que aquela hérnia ou aquele desgaste é o verdadeiro culpado pela dor. Um dos maiores estudos já feitos sobre o assunto, publicado na revista médica The Lancet, mostrou que, para a maior parte das pessoas com dor nas costas, não se consegue apontar uma causa única e exata dentro da coluna. Isso não quer dizer que a dor seja “imaginação”, muito pelo contrário, ela é completamente real. O que muda é a explicação: a dor nas costas, principalmente quando se torna crônica, costuma ter várias causas ao mesmo tempo, e boa parte delas está no nosso dia a dia, não na imagem do exame.

Por que duas pessoas com a mesma hérnia sentem dores tão diferentes

A dor nas costas é, hoje, a maior causa de incapacidade no mundo. Ela afeta pessoas de todas as idades, de crianças a idosos, em todos os países. O mesmo estudo aponta quem corre mais risco de sentir esse tipo de dor: pessoas com trabalhos pesados, quem já tem outros problemas de saúde, fumantes e pessoas acima do peso.

Isso explica uma coisa que intriga muita gente: como duas pessoas podem fazer a mesma ressonância, ter a mesma hérnia de disco, e uma sentir dor insuportável enquanto a outra não sente quase nada? A resposta normalmente não está na imagem. Está no conjunto da vida de cada uma: o quanto ela se movimenta, como dorme, o nível de estresse, o peso do corpo, entre outros fatores.

O corpo cansado dói mais: a relação entre sono, estresse e dor

Quando a dor nas costas dura mais de três meses, ela passa a ser chamada de crônica. E é justamente nesses casos que o jeito como vivemos pesa ainda mais. O nosso sistema nervoso é quem decide o quanto a dor vai ser sentida. Quando o corpo está cansado, mal dormido e estressado por muito tempo, esse sistema nervoso fica mais sensível e passa a interpretar como dor coisas que, em um corpo descansado, nem seriam notadas. É como deixar o volume da dor mais alto.

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Um estudo com pessoas que tinham dor crônica nas costas mostrou exatamente isso: tanto o estresse quanto a ansiedade estavam ligados a esse aumento de sensibilidade à dor, e a qualidade do sono também tinha um papel importante nessa história. Outra pesquisa mostrou que essa relação funciona nos dois sentidos: a dor prejudica o sono, mas dormir mal também deixa o corpo mais sensível à dor. Ou seja, a noite mal dormida não é só consequência da dor. Ela também pode ser uma das causas que a mantêm viva. Por isso, quem dorme mal, vive estressado, fuma ou está fora de forma entrega ao corpo um terreno mais favorável para a dor continuar.

O que os médicos e fisioterapeutas mais experientes recomendam

Os guias internacionais que orientam médicos e fisioterapeutas sobre como tratar a dor nas costas mudaram bastante nos últimos anos. Um estudo da série da The Lancet reforça que o tratamento precisa olhar para a pessoa como um todo, e não só para a coluna. A primeira coisa recomendada não é ficar de repouso, tomar remédio ou fazer um procedimento. As principais recomendações incluem: entender por que a dor está acontecendo, voltar a se movimentar e fazer as atividades do dia a dia, praticar exercícios físicos e, quando precisar, buscar apoio psicológico para lidar com a ansiedade e o medo que a dor costuma trazer.

O mesmo estudo chama atenção para um problema: exames de imagem, repouso em excesso, remédios fortes, injeções na coluna e cirurgias continuam sendo usados com muito mais frequência do que deveriam, mesmo sem comprovação científica de que ajudem na maioria dos casos. Tratar bem a dor crônica nas costas quase nunca significa cuidar só da coluna. Na maioria das vezes, significa devolver à pessoa a confiança para se mover de novo, melhorar o condicionamento físico e mudar hábitos que estão alimentando a dor.

O que fazer no dia a dia para aliviar a dor nas costas

A boa notícia é: já que a dor tem muito a ver com hábitos, ela também melhora quando os hábitos mudam. Veja o que a ciência mais recomenda:

● Não fique parado: evitar ficar de cama e voltar pouco a pouco às atividades e aos exercícios é uma das orientações mais firmes dos especialistas.

● Durma melhor: crie uma rotina de sono e busque ajuda profissional se a insônia for frequente.

● Cuide do seu estresse: relaxamento, atividade física regular e, se precisar, apoio psicológico ajudam a baixar o volume da dor.

● Pare de fumar e cuide do peso: tabagismo e obesidade estão entre os fatores mais associados à dor nas costas.

● Procure um fisioterapeuta: cada pessoa tem uma combinação própria de causas, e um profissional pode montar um plano sob medida para o seu caso.

Um ponto merece destaque: encontrar uma hérnia de disco ou um desgaste na ressonância não deve ser ignorado, e acompanhar isso com um médico continua sendo fundamental, principalmente para descartar problemas mais graves. Mas, na maior parte dos casos de dor crônica, olhar só para a imagem da coluna é olhar para uma fatia pequena do problema.

“A coluna é, muitas vezes, só o lugar onde o problema aparece. Para tratar de verdade a dor crônica nas costas, é preciso olhar também para o sono, o estresse, o condicionamento físico e a saúde como um todo.”

Referências científicas

1. Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. The Lancet. 2018;391(10137):2356-2367.

2. Combined effects of lifestyle and psychosocial factors on central sensitization in patients with chronic low back pain: a cross-sectional study. Musculoskeletal Science and Practice. 2021.

3. Relationship between low back pain and sleep quality. Sleep and Biological Rhythms. 2025.

4. Foster NE, Anema JR, Cherkin D, et al. Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges, and promising directions. The Lancet. 2018;391(10137):2368-2383.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1