A investigação da Polícia Federal aponta que o grupo suspeito de desviar recursos da educação em cidades do interior paulista pretendia expandir o esquema para incluir a venda de materiais voltados ao atendimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A apuração faz parte da Operação Coffee Break, que também cita como ligados ao grupo Carla Ariane Trindade , ex-nora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva , e Kalil Bittar, ex-sócio de Fábio Luís Lula da Silva , o Lulinha.
De acordo com denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) nesta sexta-feira (5/12), integrantes do esquema discutiam a comercialização de “salas especiais” e itens “neuroespeciais”, como fones de ouvido e mordedores, destinados à inclusão de crianças neurodivergentes nas redes municipais. A proposta teria sido apresentada pelo doleiro Eduardo Maculan, que classificou o negócio como uma “oportunidade”.
Nas conversas anexadas ao inquérito, o empresário André Mariano — apontado como líder do grupo — menciona que buscava apoio em Brasília para levar o projeto ao Ministério da Educação (MEC), atualmente comandado por Camilo Santana (PT). Segundo o MPF, Mariano afirmava ter “bons caminhos” dentro do ministério e via no governo federal a possibilidade de ampliar o alcance dos contratos.
A PF afirma que Mariano pagava propina a pessoas com trânsito político para facilitar negociações e abrir portas em gabinetes, papel que seria desempenhado por Carla Ariane e Kalil Bittar. Em uma das mensagens citadas pelo MPF, Mariano descreve que, ao conseguir apoio federal, o negócio deixaria de ser “varejo” para se tornar “atacado”, devido à capacidade do MEC de difundir projetos por todo o país.
O grupo já era investigado por vender livros e kits de robótica superfaturados a municípios paulistas. Segundo a PF, uma das empresas envolvidas pagou até 35 vezes o valor de aquisição dos materiais e lucrou cerca de R$ 111 milhões apenas com o fornecimento a quatro prefeituras.
A denúncia do MPF também indica que a articulação com autoridades públicas pode ter começado ainda no governo Jair Bolsonaro (PL). Em abril de 2023, Mariano e o doleiro Abdalla Dares se reuniram com o então ministro do Trabalho e Previdência Social, José Carlos Oliveira, para tratar de possíveis contratos. Após o encontro, Mariano enviou mensagem relatando que “caminhos foram iniciados”.
As defesas negam irregularidades. Os advogados de Kalil Bittar afirmam que ele não recebeu “mesada” e que os pagamentos correspondem a serviços prestados. Já a defesa de André Mariano sustenta que ele não lidera qualquer organização criminosa e que esclarecerá todos os pontos exclusivamente no processo, respeitando o sigilo e a privacidade dos envolvidos.