Ciência e Tecnologia

Aumento de lixo eletrônico encontra dificuldades no descarte no Brasil

Resíduos poluem o meio ambiente por meio de vazamento de substâncias químicas perigosas e prejudicam aqueles que recolhem manualmente partes recicláveis.

Por  Estadão Conteúdo

Depois do cair da noite, quando o lixo cobre as ruas do movimentado mercado de Kariakoo, chegam os caminhões compactadores, seguidos por homens de uniforme verde e mulheres vestindo saias e galochas. Eles varrem os detritos de frutas e legumes descartados, bem como garrafas e embalagens plásticas, e caminhões transportam tudo até o depósito. Mas o descarte do lixo é complicado por um volume cada vez maior de lixo eletrônico, que os coletores de lixo não estão equipados para descartar. O lixo eletrônico inclui de tudo: monitores de computador, televisores, celulares e muito mais. Boa parte dele fica guardada em armazéns ou é revirada na busca por elementos recicláveis antes de ser descartada.

Os produtos de energia solar que ajudam populações rurais de baixa renda sem acesso à rede elétrica também estão aumentando o lixo eletrônico. Conforme a energia solar ganha espaço, multiplicam-se as baterias de chumbo-ácido para painéis solares nos tetos e baterias de lítio das lâmpadas solares. O lixo eletrônico pode poluir o meio ambiente por meio do vazamento de substâncias químicas perigosas que chegam aos lençóis freáticos e prejudicam aqueles que recolhem manualmente as partes recicláveis desse descarte. Mas muitas regiões carecem das instalações e do equipamento necessários para descartar adequadamente o lixo.

Em Dar es Salaam, operários que recolhem as pesadas baterias de chumbo-ácido abrem as peças com machadinhas e despejam o ácido no chão usando as mãos. Então, vendem as baterias a fábricas que derretem a sucata de chumbo para revender o material. O processo polui o solo e a água com chumbo, o que pode levar a danos no cérebro e outros problemas de saúde, conforme aponta relatório da Phenix Recycling, que manteve brevemente operações na Tanzânia. A água e o solo da região do Rio Msimbazi já estão poluídos, de acordo com estudo publicado em 2018.

“A possibilidade de contaminação dos lençóis freáticos é muito forte", afirmou a engenheira Ghanima Chanzi, do Instituto das Águas, em Dar es Salaam, e autora do estudo. A água do rio é usada para irrigar as plantações da região, disse. Na África Oriental, a grande maioria das baterias de chumbo-ácido gastas são baterias de carro e sistemas reserva de fornecimento de energia, usados durante os blecautes.

De acordo com relatório da ONG Associação Global de Iluminação Desvinculada da Rede Elétrica (Gogla), na primeira metade de 2018, empresas principalmente da África Subsaariana e do Sul da Ásia venderam 3,7 milhões de produtos de energia solar, incluindo lâmpadas solares e sistemas de captação no telhado. As baterias de lítio das lanternas solares são difíceis de reciclar. Com frequência, são descartadas ou queimadas com o restante do lixo. Sistemas de captação solar montados no telhado são ligados a baterias de chumbo-ácido que duram entre cinco e oito anos se mantidas em bom estado, sendo em seguida descartadas. Algumas fabricantes de baterias de chumbo-ácido oferecem serviços formais de reciclagem na África Oriental, mas seu alcance é limitado.

Para ajudar a resolver o problema, agências de ajuda humanitária na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos prometeram oferecer US$ 1 milhão em incentivos a empresas que lidem com o problema do lixo eletrônico na energia solar. A empresa alemã de energia solar Mobisol, por exemplo, está trabalhando com a Associated Battery Manufacturers no Quênia e com a Enviroserve, que abriu um centro de reciclagem de lixo eletrônico em Ruanda, em dezembro de 2017. O centro também está construindo um centro para o tratamento das baterias de chumbo-ácido.

Em Nairóbi, Quênia, a Waste Electrical and Electronic Equipment Centre, única recicladora de lixo eletrônico registrada no país, cuida da coleta das baterias, mas envia os materiais complexos para a Europa. A Phenix Recycling foi fundada por Athina Kyriakopoulou, que trabalhou durante muitos anos em empresas de energia solar na Tanzânia e em Uganda, onde testemunhou o “alarmante” acúmulo de lixo eletrônico.

A Phenix recebia lixo eletrônico de clientes entre os quais se incluíam empresas de energia solar como M-Kopa e Mobisol. As placas de circuitos e baterias de lítio eram enviadas à Bélgica, e os painéis solares eram encaminhados à África do Sul, a Israel e à Bélgica.

A Phenix fechou no ano passado em parte por causa da “falta de investidores dispostos a financiar empresas de reciclagem, e da hesitação das empresas em pagar pelo lixo que produzem, decorrente da falta de regulamentação ou policiamento", explicou Athina. Muito dinheiro é gasto para se compreender o problema, “mas pouco se investe nas empresas em crescimento. A Phenix foi criada alguns anos antes da hora", continuou.