Ciência e Tecnologia

Brasil recicla 94% da embalagem plástica de agrotóxico

Após lei que obriga destinação correta de embalagens, Brasil vira referência mundial na reciclagem do produto.

Por  Estadão Conteúdo

Uma legislação que entrou em vigor em 2000 transformou o Brasil em referência no reaproveitamento de embalagens plásticas de defensivos agrícolas, material altamente tóxico.

Atualmente, de todas as embalagens vendidas no País que tiveram contato direto com agrotóxicos, 94% têm destino ambientalmente correto: são recicladas, transformadas novamente em embalagem do mesmo produto ou incineradas em local apropriado. Na França, esse índice de reaproveitamento é de 75%; no Canadá e na Alemanha, de 70%, e no Japão, de 50%.

“Nos Estados Unidos, país desenvolvido com dimensões parecidas com as do Brasil e também forte na agricultura, esse índice é abaixo de 30%”, diz João Cesar Rando, diretor-presidente do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), que compilou dados do retorno das embalagens de agrotóxicos entre 60 países para mostrar que o Brasil tornou-se referência nessa logística reversa.

O resultado ganha relevância especialmente no momento em que a agenda ambiental se torna ponto crucial para negociação de acordos comerciais entre os países e atração de investimentos estrangeiros para o País.

Segundo presidente do inpEV, que reúne a indústria de defensivos e associações de distribuidores e agricultores, a lei regulamentou o destino das embalagens, criando atribuições e responsabilidades para indústrias, produtores e distribuidores.

Antes, a recomendação era que o agricultor enterrasse a embalagem vazia, prática que trazia risco de contaminação do solo. “Como não havia solução para o descarte, havia agricultor que as queimavam a céu aberto, o que era muito ruim para o meio ambiente. Outros reutilizavam as embalagens plásticas para armazenar leite e água, por exemplo”, afirma Rando.

Com a lei, a implantação do programa de logística reversa – batizado de “Sistema Campo Limpo” e administrado pela entidade – ganhou força. O agricultor fica responsável por lavar a embalagem três vezes, inutilizá-la para evitar o reúso e devolvê-la para a indústria até um ano após a compra. O revendedor tem de indicar na nota fiscal o local da devolução e a indústria é responsável pela logística de transporte e pela destinação ambientalmente adequada.

O programa custa cerca de R$ 140 milhões ao ano e pouco mais da metade da cifra vem do próprio sistema. É dinheiro proveniente da produção e venda da embalagem reciclada e outros produtos a preços de mercado.

Economia circular

Em 2008, foram criadas duas indústrias dentro desse sistema em Taubaté (SP). A Campo Limpo Reciclagem e Transformação de Plástico produz novas embalagens para defensivos usando 85% do plástico reciclado. A Campo Limpo Tampas e Resinas Plásticas fabrica tampas e outros artefatos como conduítes, dutos e tubos com 100% do plástico reciclado.

“Esse é o conceito de economia circular, que cria valor não só para dentro do sistema, mas também para a sociedade, gerando empregos”, diz Rando.

De março de 2002 a setembro deste ano, 589,3 mil toneladas de embalagens vazias foram retiradas corretamente do campo. De cada 100 devolvidas, 94 são recicladas no próprio sistema e seis, incineradas.

O produtor de arroz Eduardo Cavalca Filho, que cultiva 500 hectares no Vale do Paraíba (SP), diz que sempre se preocupou em estocar embalagens de agrotóxico. Mas admite que fazia o descarte de forma errada ao queimá-las. Após a adoção do sistema, ele leva tudo para reciclar. “Hoje, temos um sistema ecologicamente correto, mas o produtor também quer receber um pouquinho por isso”, diz.

Ele argumenta que os agricultores entregam para reciclagem uma quantidade enorme de matéria-prima nobre e só têm trabalho, dor cabeça e compromisso. “Se não fizer a entrega, a multa é pesada.” Para ele, se houvesse alguma remuneração, o incentivo seria maior e não haveria embalagem rejeitada por não ter sido lavada corretamente.

Rodrigo Amadei, agrônomo responsável pela Cooperativa dos Produtores de Arroz do Vale do Paraíba, faz coro. Ele diz que o inpEV é beneficiado, pois tem matéria-prima para novas embalagens com custo baixo. Ele reconhece, no entanto, que, com esse sistema, o produtor se livra de uma embalagem que só lhe dava dor de cabeça.