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Covid-19: Boris Johnson manda fechar bares em áreas de risco na Inglaterra

Inglaterra terá sistema escalonado de três níveis para frear segunda onda de contaminações no país mais atingido da Europa; anúncio gera revolta em parte da população.

Por  Estadão Conteúdo
- atualizado

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, decidiu impor a partir desta segunda-feira, 12, um sistema escalonado com novas restrições em partes da Inglaterra à medida que o surto de covid-19 se acelera no país.

O sistema tem três níveis de alerta - médio, alto e muito alto - e inclui medidas como o fechamento de bares, academias, cassinos e casas de apostas em algumas áreas colocadas no nível de alerta "muito alto". Neste momento, as áreas mais afetadas estão no norte da Inglaterra, em cidades como Liverpool.

O modelo não afetará a Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, que, com competências autônomas em saúde, definem suas próprias políticas contra covid-19.

No nível médio, reuniões estão limitadas ao máximo de seis pessoas e os pubs e restaurantes podem ficar abertos até 22h. No alerta alto, as pessoas estão proibidas até se encontrarem em casas de outras famílias. E no nível máximo, bares e restaurantes serão fechados. Reuniões familiares também estão vetadas. O comércio e as escolas ficam abertas nos três níveis.

Johnson organizou uma entrevista coletiva transmitida para todo o país para explicar as medidas. "Se deixarmos o vírus se espalhar, iríamos sofrer não apenas um número intolerável de mortes de covid-19, mas colocaríamos uma grande pressão em nosso NHS (sistema nacional de saúde) com um segundo pico descontrolado", disse. "Nossos médicos e enfermeiras iriam ser incapazes de se dedicar a outros tratamentos".

O primeiro-ministro reconheceu que "não é assim que queremos viver a vida", mas ressaltou a necessidade das ações. "As semanas e meses à frente serão difíceis. Não tenho prazer em colocar essas restrições aos negócios e nem quero que as pessoas parem de aproveitar (a vida). Mas precisamos agir para salvar vidas".

Nesta segunda, autoridades sanitárias britânicas anunciaram a reativação nas próximas semanas dos grandes hospitais de campanha instalados às pressas durante o confinamento e paralisados ??desde então.

Aumento nas taxas de infecção

"Quase todas as áreas do Reino Unido estão vendo agora aumentos na taxa de infecção”, disse o vice-chefe médico da Inglaterra, Jonathan Van-Tam. “A epidemia, desta vez, claramente acelerou no norte da Inglaterra mais cedo do que na primeira onda.”

Dados mais recentes mostram que as infecções estão aumentando em todo o norte da Inglaterra e em algumas áreas mais ao sul. O prefeito de Liverpool, Joe Anderson, acredita que a cidade entre no nível de alerta máximo a partir de terça, impondo restrições que já despertam a ira de políticos locais contra as autoridades londrinas.

"Expresso minha raiva publicamente", reclamou o prefeito de Manchester, Andy Burnham, neste fim de semana, em entrevista coletiva. “Não vamos abandonar os moradores diante das adversidades e as empresas diante da falência”, prometeu, chegando a ameaçar com recurso judicial contra o eventual fechamento de bares e restaurantes.

Críticas

O setor de turismo e entretenimento diz que está sendo posto de joelhos pelo governo. Um grupo de proprietários de pubs e boates ingleses liderados pelo operador de clubes noturnos e eventos de Manchester, Sacha Lord, instruirá os advogados a começarem a se opor ao governo se Johnson ordenar o fechamento dos bares.

“Se ele está sugerindo que pubs e bares precisam fechar na Grande Manchester, estamos lançando uma revisão judicial imediata”, disse Lord, criador e operador do festival Parklife de Manchester. Ele tem o apoio de importantes associações como a Night Time Industries Association, a British Beer and Pub Association, a JW Lees Brewery, a Joseph Holts Brewery, a New River Pub Company e de uma série de outras operadoras no noroeste da Inglaterra.

"Minha maior preocupação como chefe é meu negócio ter de fechar novamente e podemos muito bem não abrir na próxima vez porque não há fundos", disse Frances Burleigh, proprietário do pub The Beehive, na cidade de Liverpool. "No último lockdown, perdi 6.500 libras (R$ 46,9 mil) em cerveja e 3.500 libras (R$ 25,3 mil) em comida. Não vou sobreviver a isso desta vez."

Karen Strickland, dona do pub The Grapes, disse que a receita já caiu 70% com a atual horário de fechamento nacional às 22h, e o apoio do governo não era suficiente. "É absolutamente horrível. Minha equipe, alguns deles ainda ainda não voltaram ao trabalho, o trabalho deles não está aqui para eles".

"Se eles vão fechar nossos pubs, não vai fazer qualquer diferença porque todos vão ter festas em casa, as pessoas ainda vão beber, as pessoas ainda vão se socializar", disse. “Pelo menos nos pubs fizemos o que o governo quer. Se houver algum lugar seguro, é em um pub."

Clareza

Criticado por diferentes medidas locais que confundiram os britânicos, Johnson espera com esse novo sistema impor clareza. O Reino Unido é o país mais afetado pela pandemia na Europa, com mais de 42.800 mortes confirmadas. E, como em muitos países do continente, cresce a preocupação com a chegada de uma segunda onda.

De acordo com dados divulgados nta sexta-feira pelo Office for National Statistics (ONS), cerca de 224 mil pessoas - 1 em 240 habitantes - na Inglaterra tiveram o coronavírus durante a semana de 25 de setembro a 1º de outubro.

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