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Papa Francisco recua sobre ordenação de homens casados na Amazônia

Medida foi discutida entre bispos, durante o Sínodo da Amazônia, no ano passado, como forma de aumentar a presença católica na região.

Por  Estadão Conteúdo

No documento Querida Amazônia, divulgado na manhã desta quarta-feira, 12, o papa Francisco recua da proposta de que, em casos específicos e de acordo com a necessidade, homens casados sejam ordenados padres em comunidades afastadas da Amazônia. A proposta foi discutida durante o Sínodo da Amazônia, realizado em outubro, no Vaticano.

De acordo com o Washington Post, Francisco se recusou a voltar no tema, mesmo após a recomendação positiva de bispos. A ideia, tida como uma estratégia para expandir a presença católica na região amazônica, encontra forte rejeição por parte dos conversadores.

Na chamada exortação apostólica do Sínodo dos Bispos, o pontífice caracteriza como “desigual” a presença de padres na área, reforça a importância de preservação do meio ambiente e pede aos bispos da América Latina para “promoverem a oração” por mais vocações e aos missionários para irem à Amazônia.

“Exorto todos a avançar por caminhos concretos que permitam transformar a realidade da Amazónia e libertá-la dos males que a afligem”, afirma Francisco, no texto redigido em espanhol e finalizado no dia 2 de fevereiro. O documento está disponível no link do Sínodo da Amazônia.

O texto está elaborado em quatro capítulos descritos como “sonhos” do pontífice: Social, em defesa dos mais pobres e povos nativos; Cultural, sobre a preservação da riqueza dos povos; Ecológico, sobre o resguardo da beleza natural; e Eclesial, dirigido às comunidades cristãs, para dar à Igreja “rostos novos com traços amazônicos”.

Internacionalização da Amazônia

No documento, o papa Francisco também fala sobre a chamada “internacionalização” da Amazônia. Diz que a medida não é a solução para cuidar do bioma. O pontífice cobra, ao falar sobre a preservação do meio ambiente, que os governos não se vendam a “espúrios interesses” locais ou internacionais.

“Além dos interesses económicos de empresários e políticos locais, existem também os enormes interesses económicos internacionais. Por isso, a solução não está numa internacionalização da Amazônia, mas a responsabilidade dos governos nacionais torna-se mais grave”, escreveu a papa, para em seguida defender a presença e o trabalho desenvolvido por Organizações Não-Governamentais (ONGs) – entidades que são constantemente criticadas pelo presidente Jair Bolsonaro.

“Pela mesma razão, é louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos sistemas de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais”, diz o texto.

A proposta da “internacionalização” era de grande preocupação do governo Jair Bolsonaro, em especial dos militares, que viam no Sínodo uma tentativa de fragilizar a soberania nacional sobre a porção brasileira do território amazônico. O quadro levou a um choque entre o governo Bolsonaro e o Vaticano, após o Estado revelar que o encontro episcopal era alvo de monitoramento pelos serviços de inteligência.

A exortação final, espécie de orientação do papa após todas as discussões do Sínodo, era aguardada com atenção por militares e diplomatas brasileiros que mantiveram diálogo com o Vaticano para tentar garantir uma palavra em defesa da soberania no documento final.

O tema ganhou mais relevância quando, com a Amazônia em chamas, o presidente francês, Emmanuel Macron, propôs uma discussão sobre um “status internacional” para a floresta.

Sem fazer menção específica a nenhum país ou governante, o pontífice se opõe ao avanço da exploração econômica em terras indígenas e reservas florestais e, de forma taxativa, afirma que são “injustiça e crime”.

“Às operações económicas, nacionais ou internacionais, que danificam a Amazônia e não respeitam o direito dos povos nativos ao território e sua demarcação, à autodeterminação e ao consentimento prévio, há que rotulá-las com o nome devido: injustiça e crime”, escreveu Francisco.

Como funciona um Sínodo?

Durante os Sínodos, “o papa ouve mais do que fala”, explicou o bispo d. Odilo P. Scherer, em artigo escrito para o Estado. O evento, na verdade, serve para que o Vaticano possa ouvir a opinião dos fiéis sobre assuntos específicos, por meio de questionários conduzidos pelos 250 bispos participantes, e tomar decisões a partir desses consensos.

Em 2014 e 2015, o Sínodo teve como tema “Os desafios pastorais no contexto da evangelização”, e abordou temas como divórcio, contracepção e a união entre casais homoafetivos na Igreja. Em 2018, os cardeais discutiram “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional” e no ano passado, em outubro, “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Participaram do encontro no ano passado bispos e líderes religiosos, além de indígenas e convidados especiais, dos nove países amazônicos - Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Perú, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa –, além de outros da Cúria Romana. O papa ressalta, porém, que a exortação apostólica se dirige ao mundo todo.

O objetivo de um Sínodo é discutir como a Igreja Católica pode intervir em determinados conflitos, assim como adequar suas diretrizes em lugares onde haja dificuldade de converter novos fiéis e disseminar os ideais católicos.

A palavra "sínodo" vem de duas palavras gregas: "syn", que significa "juntos", e "hodos', que significa "estrada ou caminho'. O sínodo tem caráter consultivo. Após o Sínodo, o papa emite um documento chamado "exortação apostólica", no qual resume e aprova as principais conclusões dos bispos durante as reuniões. O Sínodo da Amazônia foi o quarto do pontificado de Francisco.

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