Coronavírus no Piauí

Valorizações recentes do dólar preocupam importadores brasileiros

Cenário externo que favorece maior atratividade pela moeda e resultados fracos do varejo e da balança comercial contribuíram para cotação chegar a R$ 4,3510.

Por  Estadão Conteúdo

As valorizações recentes do dólar preocupam importadores brasileiros. Na visão de economistas, pesam nas altas da moeda a desaceleração da economia internacional e, no Brasil, os resultados recentes de queda no varejo e na balança comercial. Nesta quinta-feira, 13, a moeda americana chegou ao patamar nominal recorde de R$ 4,38. Depois, com uma intervenção do Banco Central, acabou fechando a R$ 4,3339.

O economista Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores, avalia que o cenário atual é de maior atratividade pelo dólar. "Se o Fed (banco central dos Estados Unidos) não baixar os juros, o título público americano fica mais atrativo. O investidor está preocupado com o desfecho da guerra comercial com a China, ele busca refúgio em moedas mais líquidas, como o dólar."

Do ponto de vista interno, pesam nas altas do câmbio alguns fatores, como a saída de dólares do País, que somou US$ 44,8 bilhões no ano passado, e o déficit da balança comercial em janeiro, de US$ 1,745 bilhões - pior resultado para esse mês em cinco anos, segundo a Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério da Economia.

Além disso, o varejo interrompeu sete meses seguidos de alta e registrou queda de 0,1% em dezembro em relação a novembro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Silveira ressalta que 70% das exportações do País são commodities. "Estamos vendo uma desaceleração global e, em particular, uma desaceleração ocorrendo na China, também pela crise do coronavírus, a percepção é de que comprar dólares é mais vantajoso", diz.

Na quarta-feira, 12, a China registrou o menor número de novos casos de coronavírus em quase duas semanas, contribuindo com a previsão feita pelo seu principal consultor médico de que o surto terminará em abril, embora um especialista global tenha alertado que o vírus está apenas começando em outros locais.

Os investidores ficaram mais confortáveis com o risco, especialmente com a perspectiva de que os bancos centrais devem reagir mais fortemente, se o coronavírus prejudicar a economia global.

Ainda assim, Paulo Castelo Branco, presidente executivo da Associação de Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei), ressalta que algumas empresas brasileiras já sentem a falta de componentes e insumos que viriam da China. "No nosso caso, as previsões de entrega de máquinas têm atrasos previstos de pelo menos um mês."

Além da questão chinesa, ele lembra que os importadores brasileiros já sentem a escalada do dólar desde o segundo semestre do ano passado. "Nosso setor trabalha com a perspectiva de que o dólar chegue a um patamar ainda mais alto do que o atual. Não tem jeito, tudo que envolve algum risco e ansiedade, altera o câmbio."

Na última semana, em entrevista ao Estadão/Broadcast, o presidente da General Motors na América do Sul, Carlos Zarlenga, disse que a escalada da moeda americana vai levar a montadora a um reajuste nos preços dos automóveis. Ele lembra que 40% das peças de um carro de passeio vêm do exterior.

"A gente conseguiu segurar os preços só do que já tinha em estoque, mas isso deve durar um mês. Dos azeites importados agora, tivemos de reajustar em até 23%", conta Chania Chagas, sócia da gaúcha Empório do Azeite. "Como 70% da produção nacional vem do Rio Grande do Sul e o Estado teve uma seca recentemente, essa safra só deve durar três meses. Então, ou o consumidor fica sem consumir ou vai ter de arcar com, no mínimo, 20% de aumento do produto importado."

Preocupação

Também dependente das importações, o setor farmacêutico acompanha as altas do dólar com preocupação. Como 95% da matéria prima usada para a fabricação de medicamentos vêm de fora e os preços são fixados, as empresas já trabalham com a perspectiva de redução da margem de lucro ou de revisão de contratações.

"As empresas se programaram para operar com um dólar em, no máximo, R$ 4,10 este ano. O setor está preocupado e se preparando para absorver os aumentos. Dificilmente alguma empresa vai deixar de fazer um investimento programado, mas pode deixar de contratar funcionários para uma ação promocional, por exemplo", diz o presidente executivo do Sindusfarma, Nelson Mussolini.

"Ao longo de 2020, a maioria das moedas perdeu para o dólar. O investidor sente que o risco global está mais alto e corre para comprar a moeda americana, para ter mais segurança", afirma André Perfeito, economista-chefe da Necton.

"A piora da situação global pode ser observada, inclusive, na queda dos preços da commodities, das quais o Brasil é dependente." Ele diz acreditar que o dólar tenha força para ultrapassar o patamar atual e chegar a R$ 4,60.