A espera do primeiro filho, que geralmente é um momento mágico para os casais, se transformou em tragédia para Jardyla Viana e Vicente Vicendowski, que aguardavam a chegada de Henry Vicente. Com oito meses de gestação, Jardyla começou a sentir fortes dores no dia 19 de setembro e, horas depois, o bebê faleceu. O casal buscou o primeiro atendimento na Maternidade do Buenos Aires , na zona norte de Teresina, e acusa os profissionais do estabelecimento de negligência médica.

Em relato publicado nas redes sociais, Vicente Vicendowski, visivelmente emocionado, afirmou que o casal foi recebido com arrogância por enfermeiras. “Demoraram a atender minha namorada, trataram super mal minha namorada, e isso não pode acontecer. Isso aqui é um hospital, era para ela ser bem recebida, era para salvar vidas”, declarou o pai do bebê.

Ao GP1 , a Jardyla contou que procurou a maternidade após sentir fortes dores e, enquanto isso, sentia o filho mexer na barriga. Ela afirmou que viveu momentos de agonia, que se agravaram com o atendimento prestado pelos profissionais de saúde.

“Fui atendida pela enfermeira no CCR. Ela olhou para mim e perguntou o que havia acontecido, e eu relatei que estava sentindo muita dor, que piorava a cada minuto. Ela olhou para mim e disse: ‘pois não vai se criar, é mais fácil uma criança de 6 meses se criar do que uma de 8 meses’. Eu já tinha dito que estava com 8 meses e, por causa do que ela falou, comecei a passar muito mal. Minha pressão aumentou. E aí, ela ainda disse: ‘E outra, não tem médico. O único médico que tem está na sala de cirurgia. Então, senta aí e aguarda’”, descreveu Jardyla.

Na recepção da maternidade, a mulher continuou a passar mal e, novamente, não obteve assistência de nenhum profissional. “Meu namorado estava agoniado, minha irmã, meu pai lá fora, e não fizeram nada. A enfermeira passou por nós e disse: ‘Ai ai, deixa eu tomar meu banho’, debochando da situação em que eu me encontrava. Depois de muito tempo, o médico chegou e eu fui até a sala dele. Eu não conseguia nem deitar na maca de tanta dor”, relatou a mãe.

Já no consultório, a conversa com o médico foi direta: na Maternidade do Buenos Aires não fazia cesárea, então ela seria medicada e devia esperar a transferência para a Maternidade Evangelina Rosa . Em outro setor, mais uma vez Jardyla relatou ter sido destratada ao tentar tomar uma medicação na veia. “A enfermeira não conseguia achar a veia, estava meio que estressada, mandava eu ajeitar o braço. Eu estava sentido tanta dor, que não estava mais consciente. Depois veio uma doutora, ela já tinha vindo com dois aparelhos para escutar o coração do neném, e eu vi que ela estava nervosa. Depois de muito tempo ela escutou o coração do bebê. Eu escutei”, continuou Jardyla.

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Foto: Reprodução/Instagram
Carta de despedida de Henry Vicente

Enquanto aguardava a ambulância para ser transferida, a jovem apresentou episódios de vômitos e desmaios, e em seguida a gestante foi levada para a Evangelina Rosa. “Lá é outra coisa, eu fui bem assistida, fui bem tratada da portaria até o médico. O doutor fez a ultrassom e tudo, mas eles estavam meio agoniados porque sabiam que o neném já tinha vindo a óbito. Quando o médico veio e me falou foi um desespero, eu gritava e tudo”, relembrou.

Com a complicação do quadro, Jardyla foi submetida a uma cesárea para retirada do bebê, e foi aí que descobriu: ela teve um deslocamento de placenta, o que acarretou também em uma hemorragia interna. “Eu comecei a pedir a Deus que Ele já tinha levado meu filho, que não tirasse meu útero. Graças a Deus eles não retiraram. Depois fui para a sala de UTI, fiquei com meu bebê ainda um bom tempo, me despedi dele”, contou a mãe de Henry Vicente.

Visita do diretor do hospital

Após o ocorrido, o diretor da Maternidade dos Buenos Aires, Atêncio Queiroga, foi à casa da família prestar solidariedade aos pais que perderam o primeiro filho. No encontro, Jardyla disse que questionou se na unidade não havia infraestrutura para realização de uma cesárea, e para sua surpresa, o diretor respondeu que havia, sim, a opção de fazer a cirurgia lá.

“Ele foi bem claro, disse que sim, porque o médico que me atendeu lá disse que não poderia fazer. Por mais que eu tivesse perdido meu filho, mas que pelo menos eu tivesse sido bem atendida, bem assistida na maternidade. São inúmeros casos semelhantes ao meu, de mães que perderam seus filhos por negligência médica. Por que é que eles não trabalham com empatia? Por mais que eu tivesse perdido meu filho, mas tivesse sido tratada com humanidade, dignidade, seria diferente”, destacou a mulher.

Foto: Divulgação/Ascom
Maternidade do Buenos Aires

A advogada Dárcia Alencar, que acompanha o caso junto aos pais do bebê Henry Vicente, afirmou que buscará responsabilização administrativa, cível e criminal dos funcionários envolvidos. “Ao buscarem atendimento nessa maternidade eles foram vítimas de atos cruéis de seres humanos que eram para estar ali cuidando de outros seres humanos. Não houve apenas negligência, houve crueldade, foram atos desumanos praticados contra esse casal”, afirmou a advogada.

Outro lado

Procurada pelo GP1 , a assessoria da FMS afirmou que lamenta a perda enfrentada pela família, e que instaurou sindicância interna para apurar os fatos e a conduta dos profissionais envolvidos. A pasta comunicou que, desde a recepção da paciente na Maternidade do Buenos Aires, até a transferência para a Maternidade Evangelina Rosa, será devidamente analisada.

Além disso, reiterou que o diretor-geral da unidade se colocou à disposição para prestar os devidos esclarecimentos.