Cerca de cinquenta famílias foram retiradas pela Polícia Militar do Piauí nesta sexta-feira (19) de uma ocupação com 23 dias de duração localizada no bairro Santa Lia, zona leste de Teresina. A ação ocorreu em cumprimento a uma ordem judicial de reintegração de posse expedida pela Justiça, a pedido do Estado do Piauí. Durante a operação, duas pessoas foram presas por porte ilegal de arma de fogo e de entorpecentes, segundo informações da corporação. No local, também atuaram equipes da Agência de Desenvolvimento Habitacional , responsáveis por registrar as famílias retiradas para possível inclusão em programas habitacionais.

Em entrevista à repórter Nathália Carvalho, da TV GP1 , o tenente-coronel Jamson Lima, coordenador de Mediação de Conflitos da PMPI, informou que há previsão de implantação de projetos residenciais no terreno, vinculados à Caixa Econômica Federal. Segundo o oficial, o andamento desses projetos estava inviabilizado em razão da ocupação, já que não há execução de obras em áreas ocupadas. O oficial explicou ainda que, antes da reintegração, foram feitas tentativas de levantamento da área e de saída voluntária dos ocupantes, sem sucesso.

Foto: Tandryanny Santos/GP1
Tenente-coronel Jamson Lima

“Bem, é uma ocupação em um terreno público pertencente ao Estado do Piauí e, por conta disso, já existe a previsão de alguns projetos residenciais da Caixa Econômica no local. Esse andamento estava inviabilizado em razão da ocupação, porque eles não trabalham com terra ocupada, terrenos ocupados. Nós tentamos, já há algum tempo, fazer esse levantamento e a saída voluntária dos ocupantes. Não houve essa saída voluntária, por isso estamos aqui hoje. Mesmo assim, estamos com a equipe da ADH para realizar o cadastro das famílias que aqui se encontram, para tentar adequá-las e encaminhá-las para algum outro projeto habitacional do Estado ou do município”, disse o oficial.

Ainda conforme o tenente-coronel, não houve resistência por parte das famílias durante a ação. O tenente-coronel relatou que a PM já possuía informações sobre a presença de alguns faccionados na área, identificados como conhecidos na região da Vila Samaritana, os quais foram conduzidos por estarem armados e em posse de drogas. Em relação aos demais ocupantes, não houve conduções por esbulho, e a atuação das equipes no local incluiu o cadastro das famílias para encaminhamento a projetos habitacionais do Estado ou do município, com a intenção de reduzir impactos no processo de retirada.

Foto: Tandryanny Santos/GP1
O terreno é destinado para projeto habitacionais

“Não, não houve resistência. Apesar de termos o levantamento de alguns faccionados que estavam aqui no local, nós já identificamos esses faccionados conhecidos na região da Vila Samaritana e fizemos a condução, porque eles estavam portando arma de fogo e alguma quantidade de drogas. Então, esses foram conduzidos pelo crime de porte ilegal de arma. Em relação aos ocupantes, nenhum foi conduzido, porque não houve a necessidade de fazer essa condução, no caso, pelo esbulho. Estamos aqui também tentando, mesmo agora, neste momento, fazer o cadastro dessas famílias para que sejam encaminhadas de uma forma menos traumática possível. Aqui é um terreno, de certa forma, valorizado, bem localizado. Então, existem algumas ocupações atualmente aqui na região, mas a Polícia Militar tenta se antecipar a essas reintegrações para que ocorram da forma mais pacífica possível, com menos conflito possível”, detalhou o tenente-coronel.

Moradores do local

Uma das moradoras retiradas, Camila Araújo, mãe solo de quatro filhos, afirmou que o terreno estava abandonado há mais de 50 anos e que a ocupação foi feita por famílias chefiadas por mulheres que não conseguiram mais arcar com o pagamento de aluguel. Ela relatou estar em situação de despejo e disse não saber para onde iria após a retirada.

Sem anúncio no momento

“Esse terreno está há mais de 50 anos abandonado pelo poder público e houve ocupação. Algumas famílias, mães solo, resolveram ocupar. Não é invadir, não, porque invadir é um espaço que já tem gente, e ocupar é um lugar que está vazio. A gente veio ocupar, aqui só tem mãe solo, mães que têm de cinco a sete filhos e não conseguiram mais pagar aluguel. Eu mesma estou com três meses de despejo por falta de pagamento de aluguel e a gente está aqui. Aí agora o pessoal do Estado, junto com a ADH, decidiu tomar conta, dizendo que tem projeto. E o projeto, por que não veio antes? Por que é que o projeto não veio? Agora está aí o descaso, eu levando minhas coisas, eu não sei para onde é que eu vou. Não é justo o que o pessoal da ADH está fazendo, porque eles vão só morar aqui, eles vão só morar, eles não vão fazer nada, não”, relatou a moradora.

Foto: Tandryanny Santos/GP1
Camila Araújo ocupava o terreno há 23 dias

Camila informou já ter se inscrito em diversos projetos do Minha Casa Minha Vida, sem ter sido contemplada, e afirmou que, no local, as famílias receberam apenas o cadastro social, sem indicação imediata de alternativa de moradia.

“Gostaríamos do governador se pronunciando sobre isso, que ele veja realmente a situação das famílias, que ele veja o caso e doe esse terreno. Veio um monte de policiais como se aqui tivesse bandido. Aqui não tem bandido. E agora eu peço encarecidamente que o governador se manifeste sobre esse terreno, que, se tiver projeto do Minha Casa Minha Vida, como o pessoal está falando que tem, que ele coloque o povo que está aqui. Porque não é justo. Tem muita família saindo daqui sem saber para onde é que vai. Eu já me inscrevi em vários projetos do Minha Casa Minha Vida. Esse agora eu me inscrevi, mas não fui contemplada, não sei qual é o motivo, porque eu tenho quatro filhos, moro de aluguel, estou dentro do Núcleo 1, mas não ganhei. E aí eles não estão dando alternativa, só estão fazendo um cadastro que não vai valer, só para saber a situação da família, só isso. Eu e meus quatro filhos aqui, sou mãe solo. Nem do Bolsa Família eu dependo mais, porque foi cortado, e no CRAS não sabem dizer ainda por que foi que cortaram”, descreveu Camila.