O Piauí está entre os estados brasileiros com maior risco de ser afetado pelo El Niño neste segundo semestre. O fenômeno, confirmado oficialmente pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) em junho, foi classificado pelo Itaú BBA com grau de risco alto para o Matopiba, fronteira agrícola formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, com possibilidade de seca severa. A NOAA aponta 81% de chance de que o evento atinja intensidade muito forte entre novembro e janeiro. Caso se confirme, o episódio figurará entre os mais intensos já registrados desde 1950.
O impacto imediato esperado para a região é a redução das chuvas e a ocorrência de veranicos, períodos de estiagem com calor excessivo no meio da estação chuvosa, o que pode comprometer o calendário de plantio da safra 2026/27. O plantio da soja, principal grão do agronegócio nacional, costuma ocorrer entre setembro e dezembro. Atrasos nesse período encurtam a janela para o milho segunda safra, que vem logo na sequência, aumentando a exposição dessa cultura à seca no fim do ciclo e reduzindo a produtividade.
A pecuária também está sob risco. A estiagem tende a comprometer a qualidade das pastagens em todo o Nordeste, o que obriga os produtores a recorrer mais à ração para alimentação do rebanho. O problema é que os custos dos insumos utilizados na ração, como soja e milho, já estão pressionados pelo choque no mercado de fertilizantes provocado pela guerra no Irã, que também afetou o preço do diesel. O setor enfrenta ainda o contexto de juros elevados no Brasil.
Além da agricultura e da pecuária, o boletim do Painel El Niño 2026/2027, elaborado por Inmet, Inpe, ANA, Cemaden, SGB e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, alerta que o Matopiba deve enfrentar condições mais favoráveis à ocorrência de incêndios florestais entre julho e setembro. A combinação entre redução das chuvas e temperaturas acima da média diminui a disponibilidade de água no solo e aumenta a evaporação, agravando a situação em um estado que já convive com mais de um terço do Nordeste sob condição de seca moderada.
Os efeitos do fenômeno no Piauí se somam a um cenário nacional de pressão sobre os preços dos alimentos. Economistas elevaram as projeções para a inflação de alimentos diante dos efeitos da guerra no Irã e do El Niño. Os itens de hortifruti, com ciclo de produção mais curto, tendem a responder de forma mais rápida aos choques de oferta. O fenômeno deve permanecer ativo até pelo menos o início de 2027, segundo as projeções dos centros internacionais de monitoramento climático.