Restringir o consumo de açúcar nos primeiros mil dias de vida — período que vai da gestação até aproximadamente os 2 anos de idade — pode reduzir significativamente o risco de doenças cardiovasculares na vida adulta, como infarto, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral (AVC). A conclusão é de um estudo recente publicado no British Medical Journal (BMJ). As informações são do Metrópoles .
Pesquisadores analisaram dados de 63.433 participantes do UK Biobank, no Reino Unido, e usaram como base o período de racionamento de açúcar ocorrido entre 1942 e 1953, durante e após a Segunda Guerra Mundial. A política limitava o acesso ao ingrediente e permitiu comparar pessoas expostas à restrição ainda no útero ou na primeira infância com aquelas nascidas após o fim do racionamento.
Os resultados mostraram que quanto maior o tempo de restrição ao açúcar nessa fase inicial da vida, maior a proteção cardiovascular no futuro. Pessoas menos expostas ao consumo do ingrediente apresentaram uma redução de 25% no risco de infarto e de 31% na chance de sofrer um AVC na vida adulta.
Além disso, o surgimento dessas doenças aconteceu, em média, dois anos mais tarde em comparação com os demais participantes do estudo.
Especialistas destacam que os primeiros mil dias de vida representam uma fase decisiva para a formação do metabolismo e para a prevenção de doenças futuras. Embora o estudo seja observacional e não permita afirmar uma relação direta de causa e efeito, os achados reforçam orientações já adotadas por entidades médicas.
A cardiologista Juliana Soares, do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que outros fatores também podem ter influenciado os resultados, como mudanças no estilo de vida e maior disponibilidade de outros alimentos após o fim do racionamento.
Mesmo assim, segundo a especialista, a redução do açúcar para gestantes e crianças pequenas pode favorecer uma programação metabólica mais saudável e diminuir o risco de doenças como diabetes, hipertensão e problemas cardíacos.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) não recomenda a oferta de açúcar e doces para crianças menores de 2 anos. A orientação faz parte das diretrizes de alimentação saudável e se baseia em evidências que associam o consumo precoce ao aumento do risco de obesidade, cáries, alterações metabólicas e preferência por alimentos ultraprocessados.
Após essa idade, a recomendação é que o consumo continue sendo moderado e eventual, priorizando uma alimentação equilibrada desde os primeiros anos de vida.