Na Alepi, véspera de feriado costuma ser território de ecos. Mas na quarta-feira (20), que antecedeu o Dia da Consciência Negra, segundo apurações feitas no assoalho de madeira onde confidências costumam escorregar, houve barulho suficiente para tirar raposas do torpor. O motivo atende pelo nome de Georgiano Neto , que resolveu transformar uma visita ocasional em declaração de independência, ou algo muito parecido com isso.
Segundo apurações feitas por esta coluna, Georgiano Neto e Severo Eulálio protagonizaram um diálogo que, em outra circunstância, seria apenas divergência. Naquela tarde, porém, virou sinalização. Georgiano insinuou que, para preservar a fusão MDB-PSD, sua saída seria solução fácil, desde que pudesse montar uma chapa no PSD capaz de eleger cinco deputados ligados a ele. No mundo parlamentar, isso se chama traçar o mapa da mina. No mundo político, se chama provocação.
A plateia foi pequena; o impacto, não. Severo ouviu e respondeu no tom de quem não gosta de deixar frases suspensas: a chapa do MDB não precisa de tutela e, se quiser sair, que saia. Acrescentou a observação, nada acidental, de que o pai de Georgiano disputa o Senado. A política, afinal, nunca perde a chance de lembrar quem depende de quem.
A partir desse instante, a política piauiense ganhou mais uma crise para chamar de sua.
E, como se não bastasse a turbulência explícita, esta coluna apurou que a temperatura entre MDB e PSD subiu ainda mais. Nas conversas reservadas, lideranças relatam que a chamada “aliança cruzada” vive seu momento mais delicado desde que foi costurada, e que o epicentro da crise atende pelo nome de Draga Alana .
Segundo fontes que transitam nos dois lados, articuladores do PSD ( Júlio César ) consideram “inaceitável” a exclusão do vereador da chapa simbólica montada para acomodar interesses mútuos. Há, inclusive, quem avalie que o gesto do MDB foi lido como um sinal de desconfiança e, em política, esse ruído costuma custar caro. A cúpula pessedista já deixou claro, longe dos microfones, que recuar nesse ponto seria admitir fragilidade interna, algo impensável em ano de composição estratégica.
Do outro lado, o MDB sustenta a decisão como “irreversível”. O recado que circula nos bastidores é de que o partido não pretende abrir exceções que possam reorganizar disputas já sensíveis dentro da sigla. Dirigentes emedebistas enxergam na pressão do PSD um risco para o próprio equilíbrio interno do partido, que teme transformar uma acomodação externa em um incêndio doméstico.
O impasse, agora ameaça a engenharia mais ampla da aliança. Interlocutores próximos às negociações admitem que, mantida a intransigência dos dois lados, a tal composição cruzada pode não resistir ao teste. E se vier a ruir, não será por falta de aviso: os sinais de fissura já são evidentes para quem observa a paisagem por trás das cortinas.
O governo, que preferia lidar com obras, encontra-se lidando com egos. Falta um coordenador político não por ausência de nomes, mas por excesso de cautela. Em política, vacância estratégica tem o mesmo efeito de porta aberta em noite de chuva: entra o que não se quer. Seja qual for o desfecho, a fusão que parecia garantida agora parece apenas provável.
E, no Piauí, o provável sempre foi um primo distante do definitivo.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1