Há um abismo crescente entre o Palácio da Cidade e a vida real de quem depende da rede pública de saúde em Teresina. Um abismo sustentado não apenas por falhas administrativas, mas por uma escolha política clara: a de governar à distância do sofrimento cotidiano da população. A Fundação Municipal de Saúde , sob a gestão do prefeito Sílvio Mendes , tornou-se o retrato de um sistema que não acolhe, não responde e não se responsabiliza.
A crise não é silenciosa. Em julho, o então presidente da FMS, Charles Silveira, deixou o cargo após relatar divergências internas, quebra de hierarquia e decisões tomadas sem sua participação direta. O episódio escancarou uma desorganização estrutural e um modelo de gestão em que a condução técnica cede espaço à improvisação. Desde então, a instabilidade se aprofundou, enquanto o prefeito Sílvio Mendes optou por tratar o problema como ruído administrativo, não como emergência social.
O caso de Valdimir Alves , morador da zona sul da capital, exposto recentemente em reportagem da TV GP1 , é um retrato doloroso dessa realidade. Portador de Parkinson em estágio avançado ele depende de uma medicação que deveria ser fornecida gratuitamente pelo município. Não recebe . Para continuar vivendo com dignidade mínima, contrai empréstimos e conta com doações diárias de desconhecidos. Pessoas comuns estão assumindo uma responsabilidade que cabe ao poder público . Quando a solidariedade vira política pública informal, no caso específico, o Município já falhou por completo.
E Valdimir não está sozinho. O que se vê nas unidades básicas de saúde é uma rotina que afronta qualquer noção de humanidade. Usuários relatam que precisam chegar ainda no período da tarde e passar a noite nas portas dos postos para tentar garantir, na manhã seguinte, uma das poucas vagas disponíveis para consulta. O número reduzido de atendimentos não cobre, nem de longe, a demanda de uma cidade com 905.692 habitantes. Para cirurgias ou atendimentos especializados, o cenário se torna ainda mais cruel. Há quem pague terceiros para enfrentar filas e madrugadas, porque adoecer, para muitos, virou um risco que o município não cobre. Em Teresina, sob a atual gestão, o cidadão não tem sequer o direito de adoecer.
Enquanto isso, o prefeito Sílvio Mendes se mantém alheio. Não visita unidades de saúde para ver as longas filas, não responde às denúncias com a urgência que elas exigem, não assume a gravidade do colapso. Talvez porque não precise. Quando adoece, não enfrenta madrugadas em calçadas nem disputa vagas escassas. É acomodado em leitos de hospitais privados, pagos, em última instância, pelos mesmos cidadãos que hoje dormem ao relento tentando salvar a própria vida.
A Fundação Municipal de Saúde se limita a emitir notas técnicas, frias, distantes, que falam de licitações, fornecedores e trâmites burocráticos. Notas que não entregam remédios, não reduzem filas e não aliviam a angústia de quem espera. Notas que “esclarecem” sem esclarecer.
A justificativa apresentada pela FMS, de que a falta de medicamentos decorre da ausência de processo licitatório vigente e do atraso na entrega por fornecedores, pode servir aos arquivos administrativos, mas não responde à pergunta central: como uma gestão permite que um serviço essencial funcione sem planejamento mínimo? Como se governa uma capital ignorando que saúde não admite interrupção? A população não pode esperar o ritmo da burocracia quando a doença não espera.
O eleitor teresinense colocou Sílvio Mendes na cadeira principal do Palácio da Cidade esperando responsabilidade, presença e ação. O que recebe, no entanto, é abandono institucional. A saúde pública não está em crise por falta de avisos. Está em crise por falta de comando, de sensibilidade e de compromisso. E essa conta, todos os dias, recai sobre quem menos pode pagar.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1