Em um movimento que começou com sinais discretos e ganhou corpo nas últimas semanas, a adesão do ex-prefeito de Oeiras, Zé Raimundo , à base política do governador Rafael Fonteles (PT) acabou provocando uma reação contundente dentro do eleitorado tradicional que o apoiou por anos. O ponto de tensionamento veio por meio das declarações do deputado estadual Bessah (Progressistas), atual secretário municipal de Meio Ambiente de Teresina, que criticou publicamente a escolha do colega de grupo político.

Foto: Lucas Dias/GP1
Zé Raimundo, ex-prefeito de Oeiras

O processo começou historicamente com as raízes políticas da família Sá em Oeiras. Zé Raimundo surgiu na política sob a influência do tio e mentor político, B. Sá, figura de peso em diversas eleições locais e nacionais. O grupo político liderado pela família, conhecido nos círculos regionais como os “bocas pretas”, tradicionalmente se posicionou em oposição ao governo estadual atual.

Foto: Lucas Dias/GP1
Bessah Filho

A ruptura começou a tomar forma quando Zé Raimundo rompeu com a sintonia política anterior e decidiu se aproximar da base de Fonteles, lançando-se a um novo alinhamento em busca de maior protagonismo local. Esse movimento foi oficializado em um encontro no Palácio de Karnak, em Teresina, no dia 9 de fevereiro, quando o ex-prefeito e um grupo de aliados políticos reuniram-se com o governador e deputados estaduais aliados para formalizar a adesão à base governista.

Ponto a ponto da ruptura

1) Construção de uma trajetória política familiar:

Zé Raimundo iniciou sua carreira política sob a influência do tio B. Sá, figura histórica em Oeiras. O grupo conhecido como “bocas pretas” consolidou influência regional por décadas, com uma base fiel de eleitores.

2) Afasteamento interno em 2024:

Sem anúncio no momento

Em 2024, durante a campanha eleitoral anterior, Zé Raimundo e seu primo Bessah passaram a divergir politicamente, chegando a conviver no mesmo palanque, mas sem a sintonia de antes. Essa dissidência foi o primeiro sinal de um futuro desalinhamento mais explícito.

3) Oficialização da adesão à base de Fonteles:

No início de fevereiro de 2026, Zé Raimundo participou de um encontro no Palácio de Karnak com o governador Rafael Fonteles e aliados como os deputados Severo Eulálio e Georgiano Neto e o ex-governador Wilson Martins. Na ocasião, sua entrada formal na base aliada foi anunciada.

4) Posicionamento de Bessah:

Em resposta, Bessah afirmou que a escolha de Zé Raimundo é “lamentável” e vai de encontro à história política do grupo dos “bocas pretas”. Interlocutores disseram a esta colunista que Bessah e seu pai, o ex-deputado B. Sá, continuarão na oposição ao governo estadual, erguendo a bandeira de resistência em busca de uma alternativa para o estado.

E agora?

Bessah projeta que a eleição de 2026 será o momento em que o eleitorado de Oeiras dará sinais claros sobre de que lado ficará, especialmente os simpatizantes tradicionais dos “bocas pretas”. “Será divisor de águas”, disse um interlocutor ouvido por esta colunista, referindo-se ao voto como o juiz final dessa disputa.

O episódio revela que, mesmo em um cenário em que a liderança de Fonteles é amplamente majoritária nas pesquisas estaduais, os movimentos de adesão e resistência continuam redesenhando o tabuleiro político local, com implicações além de Oeiras. As defecções e alianças em torno do governador mostram que o seu projeto de reeleição tem sido capaz de atrair nomes históricos de oposição, enquanto políticos como Bessah tentam manter coesa uma narrativa alternativa frente ao eleitorado.

Esta dinâmica de aproximações e dissidências locais reflete um fenômeno mais amplo no Piauí: alianças tradicionais cedendo espaço a novos arranjos, em um ano eleitoral que promete confirmar, ou desmentir, esses movimentos nos votos. A história política familiar e a mudança de lealdades em Oeiras são apenas um fragmento de um quadro eleitoral em mutação.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1