Não é um vírus novo, não é uma bactéria rara e não aparece nos plantões de urgência da televisão. Mesmo assim, o sedentarismo é hoje o maior inimigo da saúde pública brasileira. Ele não lota hospitais por alguns meses. Ele lota o SUS o ano inteiro, todos os anos, de forma contínua, silenciosa e devastadora.

Enquanto epidemias vêm e vão, o sedentarismo permanece. Ele é o pano de fundo de quase todas as doenças que drenam bilhões do Sistema Único de Saúde: infartos, AVCs, diabetes, hipertensão, obesidade, dores crônicas, depressão, ansiedade e uma infinidade de complicações que poderiam ser evitadas com algo básico — movimento.

Foto: Divulgação/Ascom
Demóstenes Ribeiro

O brasileiro sedentário não adoece de uma vez. Ele vai adoecendo aos poucos. Primeiro ganha peso, depois perde força, depois passa a sentir dor, depois precisa de remédio. Um remédio vira dois. Dois viram cinco. Quando se percebe, está preso a consultas frequentes, exames caros, afastamentos do trabalho e internações repetidas. E tudo isso recai sobre o SUS.

O sedentarismo transforma o sistema de saúde em um sistema de manutenção da doença. Em vez de prevenir, o SUS é obrigado a apagar incêndios provocados por um estilo de vida parado. É como tentar esvaziar um barco furado: não importa quanto se invista em hospitais, médicos e medicamentos, enquanto a população não se movimentar, a conta nunca vai fechar.

O mais absurdo é que a principal “vacina” contra essa epidemia é gratuita. Não precisa de laboratório, não precisa de importação, não precisa de bula. Caminhar, fortalecer os músculos, se mexer regularmente reduz drasticamente o risco das doenças que mais matam e mais custam ao sistema público. Ainda assim, investir em atividade física segue sendo tratado como gasto supérfluo, e não como economia em larga escala.

Se o sedentarismo fosse um vírus, já teria decretado estado de emergência. Mas como ele se instala no sofá, na cadeira e na rotina parada, segue sendo normalizado. O resultado é um SUS cada vez mais sobrecarregado, tratando doenças que poderiam, em grande parte, nunca ter existido. Combater o sedentarismo não é opção. É sobrevivência do sistema de saúde.

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*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1