A cortina se fecha no teatro da licitação emergencial do lixo de Teresina, e o resultado é, no mínimo, um insulto à inteligência do cidadão. A empresa Ibero Lusitana , com sede em Tianguá (CE), acaba de abocanhar um contrato de R$ 9.955.538,80 para limpar as zonas sul e sudeste da capital. O prêmio foi conquistado com base em um atestado técnico que não resiste a uma análise básica, exibindo números que pertencem mais ao reino da ficção do que à realidade.
A documentação "comprobatória" da empresa se baseia em uma suposta operação em Floriano/PI, onde alega ter coletado uma média extraordinária de 4.700 toneladas de lixo por mês. A matemática é simples: isso daria a cada um dos 64 mil habitantes de Floriano a capacidade de produzir 2,447 kg de lixo por dia — quase 250% a mais que a média nacional. A mágica não para por aí. Na mesma peça de ficção apresentada como atestado, a Ibero Lusitana jura ter prestado serviços de Coleta de Pontos de Recebimento de Resíduos (PRR’s), um "detalhe" curioso, visto que tal serviço nunca foi contratado pela prefeitura de Floriano no período em questão.
A ironia se torna ainda mais amarga ao lembrar que a mesma ETURB, com uma rigidez exemplar, desclassificou a empresa Recicle por inconsistências em seu atestado, apontadas pelo TCE/PI. A régua que foi implacável com uma, tornou-se surpreendentemente flexível para outra. Uma conveniência que grita aos ouvidos de quem acompanhou o processo. Para fechar o caixão da lógica, a "robusta" frota da empresa Ibero Lusitana é composta por cinco caminhões, três motos e um Gol. Como essa estrutura pretende dar conta de duas das maiores zonas de uma capital?
Apesar de todo os dados surreais, do serviço inexistente e da frota questionável, a Ibero Lusitana foi declarada vencedora e a pergunta que ecoa por Teresina não é mais apenas "a quem interessa?", mas sim: como um atestado tão flagrantemente frágil foi validado para garantir um contrato milionário?
A gestão do prefeito Sílvio Mendes deve uma explicação aos cidadãos que pagarão esta conta de quase R$ 10 milhões por um serviço que já nasce sob a sombra da suspeita.
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