Observo o malabarismo retórico que os petistas precisam fazer para justificar o injustificável. Não se trata mais de divergência ideológica, de um debate legítimo entre esquerda e direita. Trata-se de defender ou relativizar um regime que persegue adversários, prende opositores, controla instituições, censura a imprensa e destrói, de forma sistemática, as bases mínimas da democracia.
Quando alguém decide defender Maduro, precisa fechar os olhos para uma sequência de crimes políticos e humanitários. Precisa fingir que não vê eleições manipuladas, resultados contestados e a completa ausência de garantias democráticas. Precisa ignorar prisões arbitrárias, processos sem devido direito de defesa e o uso do Estado como instrumento de vingança política. Precisa, sobretudo, minimizar o sofrimento de um povo inteiro empurrado para a miséria, para o exílio e para a perda total de perspectivas.
O mais chocante é perceber como essa defesa vem acompanhada de um discurso moralista seletivo. Os mesmos que se dizem defensores dos direitos humanos, da democracia e da justiça social passam a usar eufemismos quando o autoritarismo veste a camisa do seu campo ideológico. Ditadura vira “modelo alternativo”. Repressão vira “medida necessária”. Censura vira “regulação”. A verdade vira narrativa inconveniente.
Eu não consigo aceitar essa hipocrisia. Não consigo aceitar que, em nome de um projeto de poder, se normalizem práticas que, se viessem de outro espectro político, seriam corretamente denunciadas como tirania. A dificuldade dos petistas em defender Maduro não é apenas moral; é lógica. Não há argumento honesto que sustente um regime que se mantém pela força, pelo medo e pela mentira institucionalizada.
Defender Maduro exige negar a realidade da Venezuela. Exige desumanizar os venezuelanos que fugiram do país, tratando-os como estatística ou inconveniente político. Exige ignorar mães que perderam filhos, jovens que perderam o futuro e famílias que perderam tudo, menos a memória de quem os levou a esse abismo.
O que mais me preocupa é o reflexo disso no Brasil. Quando lideranças do Partido dos Trabalhadores relativizam crimes de uma ditadura estrangeira, elas enviam um recado perigoso: o de que a democracia é um valor negociável. O de que instituições só importam quando servem ao projeto político da vez. O de que o poder vale mais do que a liberdade.
Eu me recuso a aceitar esse caminho. Denunciar Maduro não é ser “de direita” ou “de esquerda”. É ser coerente. É reconhecer que não existe justiça social sem liberdade, nem igualdade sem Estado de Direito. Não existe povo livre sob um governo que prende, cala e persegue.
A dificuldade dos petistas em defender Maduro revela, no fundo, um problema maior: a incapacidade de romper com ditaduras amigas. Enquanto esse rompimento não acontecer, toda fala sobre democracia soará vazia, frágil e contraditória. E eu continuarei dizendo, sem rodeios: não há causa nobre que justifique a defesa de um tirano.
Além disso, ao defender Maduro, os petistas cometem um erro estratégico profundo: confundem lealdade ideológica com compromisso democrático. Ao escolherem proteger um regime autoritário, eles se afastam da sociedade real, daquela que sente na pele o peso da inflação, do desemprego e da falta de liberdade. Essa postura não fortalece a esquerda, pelo contrário, a fragiliza, porque transforma uma tradição histórica de luta por direitos em mera justificativa de poder. O resultado é a perda de credibilidade moral e política, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.
Há ainda um erro ético ainda mais grave: ao relativizar os crimes do regime venezuelano, os petistas normalizam a exceção, como se abusos pudessem ser tolerados quando cometidos “pelos nossos”. Esse tipo de raciocínio corrói qualquer noção de princípio e abre espaço para que práticas autoritárias sejam aceitas como método de governo. Defender Maduro não é apenas um equívoco político; é um atalho perigoso que ensina que a democracia pode ser descartada quando atrapalha o projeto de poder.
Aproveito este espaço para registrar minha gratidão por um ano de postagens no GP1 , um veículo que cumpre um papel fundamental no debate público do Piauí. Agradeço, de forma especial, ao presidente Júlio Holanda , pela confiança e pela abertura ao pluralismo de ideias, e à editora Raisa Brito , pela condução profissional, respeito editorial e compromisso com a informação. Seguimos firmes, com responsabilidade, independência e o dever de contribuir para um jornalismo que provoque reflexão e fortaleça a democracia.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.
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