Eu li Public Opinion, de Walter Lippmann, tentando entender uma pergunta simples: por que, tantas vezes, a política parece funcionar melhor na propaganda do que na vida real.

A resposta veio rápido. Lippmann mostra que não vivemos na realidade. Vivemos na narrativa. Não reagimos aos fatos. Reagimos à imagem dos fatos. E é dentro dessa realidade construída que tomamos decisões, escolhemos líderes e formamos opiniões.

Foi ali que percebi: o que estamos vivendo hoje já havia sido diagnosticado há mais de um século.

Lippmann não escreve sobre redes sociais, reels ou marketing digital. O livro é de outro tempo. Mesmo assim, parece ter sido feito sob medida para a política atual.

Logo no início, ele deixa claro que cada cidadão vive dentro de um “pseudoambiente”, um mundo mental formado por manchetes, discursos, fotos e frases repetidas. Não enxergamos o todo. Vemos recortes. E é com esses recortes que tomamos decisões.

Um dos exemplos mais fortes do livro é quando ele explica que notícia não é sinônimo de verdade. A função da notícia é apenas sinalizar um evento. Já a verdade exige contexto, comparação e investigação profunda. Mas quase ninguém tem tempo para isso. O público consome títulos, não processos.

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Resultado: passamos a confundir visibilidade com realidade.

Outro ponto central é o papel dos estereótipos. Lippmann mostra como usamos rótulos para simplificar o mundo: “governo do povo”, “gestão humanizada”, “estado que cresce”, “defensor dos pobres”. Esses atalhos mentais substituem análise racional. A pessoa não avalia políticas públicas. Ela reage a palavras-chave.

Ele também descreve como percepções coletivas podem ser moldadas de forma organizada. Usa como exemplo as campanhas de propaganda da Primeira Guerra Mundial, mostrando como governos conseguiram mudar completamente o humor da população em pouco tempo, apenas com repetição, símbolos patrióticos e controle da informação. Não foi debate. Foi engenharia emocional.

Ali ficou claro: opinião pública não nasce espontânea. Ela é construída.

Lippmann vai além. Ele afirma que a imprensa não reflete o mundo. Ela o edita. Decide o que vira pauta, quem ganha voz e qual tom será usado. Esse enquadramento passa a ser tratado como realidade objetiva, quando na verdade é uma construção.

E talvez o trecho mais duro do livro seja quando ele fala da democracia. Para Lippmann, o cidadão comum não tem tempo, energia nem informação suficiente para acompanhar tudo com profundidade. Isso cria um vazio. E esse vazio é preenchido por propaganda, marketing político e narrativas simplificadas.

A democracia vira espetáculo.

Lendo isso, ficou impossível não fazer paralelos com hoje.

Primeiro se cria a história. Depois se escolhem os fatos que cabem nela.

A política virou produto visual. Foto vence resultado. Vídeo curto substitui política pública. Emoção vem antes da razão. A repetição cria sensação de verdade.

Cada território recebe uma versão do mesmo governo. Cada público vê um recorte diferente da realidade. Enquanto isso, os problemas estruturais ficam fora do enquadramento.

Lippmann escreveu tudo isso sem conhecer algoritmo, sem conhecer impulsionamento, sem conhecer influencer.

Mesmo assim, descreveu exatamente o modelo atual.

Terminei o livro com uma convicção: A disputa política real acontece na cabeça das pessoas.

Quem domina a narrativa governa, mesmo sem entregar resultado.

Quem entende isso constrói base, território e autoridade.

Quem ignora vira refém do marketing alheio.

Esse é o alerta de Walter Lippmann. E talvez seja uma das leituras mais importantes para quem quer entender por que hoje, tantas vezes, aparência pesa mais que realidade.

José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.

E-mail: t.j@uol.com.br

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1