Sempre que falo sobre política ou comunicação, gosto de começar lembrando que informação é poder. E nesse jogo da informação, há duas peças fundamentais que nem sempre o cidadão comum consegue distinguir: notícia e narrativa. São parecidas, mas não são a mesma coisa. E entender essa diferença é vital para que cada um de nós não seja manipulado.
A notícia é, em essência, o fato. Ela nasce de um acontecimento real, objetivo, verificável. A notícia não precisa de maquiagem, não depende da simpatia ou antipatia de quem a lê. Ela é a descrição do que ocorreu. Se o preço do arroz subiu, a notícia mostra o dado concreto, com números e fontes. Se houve um apagão numa cidade, a notícia relata o dia, a hora e as consequências. A notícia tem compromisso com a realidade.
Já a narrativa é outra coisa. Ela pega o fato, a notícia, e o interpreta sob uma lente, com um objetivo. A narrativa é o enquadramento que se dá ao acontecimento. Pode ser para minimizar, para inflar, para inverter responsabilidades ou até para criar heróis e vilões. Enquanto a notícia responde ao “o que aconteceu?”, a narrativa se preocupa com o “como eu quero que as pessoas enxerguem o que aconteceu?”.
Deixo um exemplo simples: se o governo aumenta os impostos, a notícia é “o governo elevou a alíquota de tal imposto de X% para Y%”. A narrativa, por outro lado, pode ser construída de duas formas totalmente diferentes. Para o governante, pode ser “estamos ajustando a economia para garantir investimentos sociais”. Para a oposição, pode ser “o governo está sufocando o trabalhador com mais impostos”.
O fato, a notícia, é o mesmo. Mas as narrativas se multiplicam.
É por isso que a narrativa é tão poderosa. Ela mexe com emoções, com símbolos, com sentimentos coletivos. Ela não é neutra, porque carrega uma intenção. A notícia pode até incomodar, mas é objetiva. Já a narrativa conquista, divide, polariza. Ela molda percepções.
Na política, essa diferença é vital. Quem controla a narrativa, muitas vezes, controla o debate público. Mas quem sabe separar notícia de narrativa se protege contra manipulações. Afinal, a democracia só é saudável quando os cidadãos têm condições de enxergar os fatos como eles são e, a partir daí, formar suas próprias opiniões.
Por isso insisto: precisamos aprender a perguntar sempre “isso é notícia ou é narrativa?”. Essa consciência crítica é o primeiro passo para não cairmos em armadilhas que confundem informação com propaganda.
Eu acredito que a notícia deve ser respeitada, porque ela é o chão firme onde pisamos. Mas nunca devemos esquecer que, ao redor dela, sempre haverá narrativas tentando nos puxar para um lado ou para o outro. Cabe a nós ter clareza, discernimento e coragem para não nos deixarmos enganar.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário, escritor e empresário.
Instagram : @trabuojr
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