Nos consultórios de fisioterapia, é cada vez mais comum receber pacientes que chegam segurando um envelope de exames antes mesmo de descreverem o que sentem. A frase 'Eu tenho uma hérnia' tornou-se quase uma identidade, às vezes, uma sentença de invalidez. No entanto, a ciência moderna traz uma revelação ao mesmo tempo simples e libertadora: o que aparece na imagem pode ser apenas uma 'ruga interna', um sinal normal do envelhecimento humano.

1. O Paradoxo do Assintomático: a 'lesão' que não dói

Imagine realizar um exame de ressonância magnética em cem pessoas que praticam esportes, trabalham, dormem bem e não sentem absolutamente nenhuma dor nas costas. Qual seria o resultado? A resposta surpreende a maioria das pessoas.

Um dos estudos mais importantes sobre esse tema foi conduzido por Brinjikji e colaboradores (2015), publicado no respeitado periódico American Journal of Neuroradiology. Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática analisando imagens de coluna de 3.110 indivíduos completamente assintomáticos, ou seja, pessoas sem nenhuma queixa de dor. Os números encontrados são reveladores:

Foto: Reprodução
Estudo

Ou seja: 9 em cada 10 pessoas com mais de 60 anos têm algum sinal de desgaste na coluna, e não sentem nada. Isso não quer dizer que o exame está errado. Quer dizer que a presença de uma alteração estrutural não é suficiente para explicar a dor.

"Alterações na coluna são achados normais do envelhecimento, assim como cabelos brancos ou rugas na pele. Elas estão lá, mas não são, necessariamente, a causa da sua dor." Brinjikji et al., 2015 — American Journal of Neuroradiology

Outro estudo relevante, conduzido por Jensen e colaboradores (1994) e publicado no New England Journal of Medicine, examinou 98 pessoas sem dor lombar. Em 64% delas foram encontradas protrusões discais; em 38%, hérnias confirmadas. A maioria não sabia, e vivia normalmente.

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2. Estrutura vs. Função: onde realmente mora a dor?

O modelo médico tradicional foi construído sobre uma lógica mecânica: encontre a 'peça quebrada' e conserte-a. Essa visão, conhecida como modelo biomédico, foi extremamente útil para doenças infecciosas e fraturas. Mas quando aplicada à dor crônica e às queixas musculoesqueléticas, ela apresenta limitações sérias.

MODELO BIOMÉDICO (ANTIGO) : Foca na estrutura danificada. Procura uma 'peça quebrada'. Trata o exame, não a pessoa. Frequentemente leva a cirurgias desnecessárias e ao medo do movimento.

MODELO BIOPSICOSSOCIAL (ATUAL) : Integra corpo, mente e contexto. Avalia o movimento, as crenças, o estresse e o sono. Reconhece a dor como experiência gerada pelo sistema nervoso, não apenas sinal de dano.

ANALOGIA CLÍNICA : Um exame de imagem é como uma fotografia de um carro estacionado: ele mostra se a lataria está riscada (estrutura), mas não diz se o motor funciona, se falta óleo ou se o motorista sabe dirigir. A fisioterapia avalia o carro em movimento.

Pesquisas em neurociência da dor, como os trabalhos do neurocientista australiano Lorimer Moseley, demonstram que a intensidade da dor está mais correlacionada com a percepção de ameaça pelo cérebro do que com o grau de dano estrutural. Isso explica por que pessoas com hérnias enormes não sentem nada, enquanto outras com alterações mínimas vivem com dor intensa.

3. O Efeito Nocebo: quando as palavras machucam mais que a hérnia

Você provavelmente já ouviu falar do efeito placebo: a capacidade de um tratamento inerte melhorar sintomas por influência da crença positiva. O que muita gente não sabe é que o oposto também é real.

O efeito nocebo ocorre quando palavras, diagnósticos ou expectativas negativas pioram os sintomas de uma pessoa. Quando um paciente lê no laudo 'degeneração severa', 'artrose avançada' ou 'extrusão discal', o cérebro interpreta isso como sinal de perigo iminente.

■ A espiral do medo e da imobilidade

Medo de 'piorar o estrago' → menos movimento → rigidez muscular → sistema nervoso mais sensibilizado → mais dor → mais medo. O ciclo se retroalimenta — não pela hérnia, mas pela inatividade gerada pelo diagnóstico.

Um estudo publicado no Spine Journal por Darlow et al. (2013) mostrou que pacientes que receberam linguagem negativa durante consultas médicas apresentaram mais incapacidade e mais dor a longo prazo do que aqueles que receberam orientações encorajadoras e orientadas ao movimento.

DADO IMPORTANTE : Uma revisão sistemática publicada no British Journal of General Practice (Buchbinder et al., 2008) demonstrou que campanhas de saúde pública ensinando a não ter medo do movimento reduziram significativamente as taxas de afastamento por dor lombar, sem nenhuma intervenção cirúrgica.

4. O que a ciência diz sobre o tratamento: mover-se é o remédio

As diretrizes internacionais mais atuais, incluindo as do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) e da Lancet Low Back Pain Series (2018), são unânimes: para a grande maioria dos casos de dor lombar e cervical, o tratamento de primeira linha deve ser:

Exercício terapêutico: Fortalecimento progressivo, mobilidade e exercícios aeróbicos. O movimento nutrido e gradual é o principal 'remédio' para a maioria das dores musculoesqueléticas.

Educação em neurociência da dor: Ensinar o paciente a entender como a dor funciona no cérebro reduz o medo, melhora a função e diminui o uso de medicamentos, com evidências sólidas em múltiplos ensaios clínicos.

Exposição gradual ao movimento: Reintroduzir de forma segura os movimentos que o paciente evita por medo, respeitando o ritmo de cada um. A confiança no próprio corpo é construída, não proclamada. Uma metanálise publicada no JAMA Internal Medicine (Chou et al., 2017) comparou exercício físico orientado, cirurgia e repouso para dor lombar crônica. O exercício mostrou-se superior ao repouso em praticamente todos os desfechos avaliados, e equivalente ou superior à cirurgia na maioria dos casos sem déficit neurológico grave.

5. Quando a imagem importa, e quando não importa

É importante deixar claro: os exames de imagem têm valor clínico inegável. Eles são fundamentais quando há suspeita de fraturas, tumores, infecções, déficit neurológico progressivo ou falha no tratamento conservador após período adequado.

REGRA CLÍNICA PRÁTICA : A decisão de realizar um exame de imagem deve ser guiada pelos sinais de alerta clínicos ('red flags'). A maioria dos episódios de dor lombar aguda não requer imagem nas primeiras 4 a 6 semanas, segundo as diretrizes internacionais.

6. O papel ativo do paciente: a mudança de perspectiva

Um dos maiores obstáculos à recuperação não é a hérnia, é a crença de que sem 'consertar' a imagem, a pessoa nunca vai melhorar. Essa crença leva à passividade e à dependência de tratamentos passivos, além da busca interminável por um exame 'limpo'.

"De 'O que o meu exame diz que tenho?' para 'O que o meu corpo é capaz de fazer?'"

Estudos sobre autoeficácia, a crença da pessoa em sua própria capacidade de se recuperar, mostram que ela é um dos preditores mais fortes de bons resultados em dor musculoesquelética. Pacientes que acreditam que podem melhorar, melhoram mais e mais rápido.

Você não é o seu laudo. Sua coluna não é um objeto quebrado esperando conserto, é um sistema vivo, adaptável e surpreendentemente resiliente. A dor é real e merece atenção. Mas a resposta raramente está em uma imagem. Ela está em como você se move, no que você acredita e no suporte que você recebe para voltar a viver sem medo.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1