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Economia de mercado


Por Arthur Teixeira Junior *

Imagem: ReproduçãoArthur Teixeira Junior (Imagem:Reprodução)Arthur Teixeira Junior

Minha linda esposa montou um restaurante na cidade onde moramos. No início (méritos a sua notável habilidade culinária) o estabelecimento era freqüentado principalmente por políticos e outras personalidades da região.

Quando promovi uma manifestação pacífica defronte ao prédio da Prefeitura, de imediato o Prefeito e sua família deixaram de lá realizarem suas refeições e comemorações. Como represália adicional, ordenou aos secretários municipais que o mesmo o fizessem, determinação prontamente atendida, graças ao medo que os competentes serviçais municipais tem de perder sua boquinha.

Nesta mesma coluna, alertei que os vereadores passavam a noite lá bebericando, ao invés de participarem das reuniões na Câmara Municipal. De pronto, vereadores e familiares deixaram de freqüentar o estabelecimento.

Em crônica publicada (e no mesmo dia parcialmente retirada da mídia, por força não sei de quem), comentei a “pulada de cerca” de um político local. Três políticos locais, que nada tinham com o fato, mas vestindo a carapuça, deixaram de nos prestigiar. Sabem o que aconteceu?

O movimento aumentou exponencialmente. Agora famílias com suas crianças, religiosos, casais casados de fato e de direito, namorados, estudantes, enfim, a parte boa da sociedade local, sentiu-se a vontade para freqüentar o local, livre dos maus fluídos. Novos funcionários foram contratados, novos equipamentos comprados, o atendimento teve que ser ampliado. Coisas de mercado.

No serviço público ocorre algo semelhante. Alguns setores funcionam melhor quando seus titulares entram de férias ou de licença. Constantemente, um servidor que se aposenta ou afasta-se por qualquer circunstância, dá lugar a alguém recém concursado ou transferido, e como resultado temos uma grande melhora no atendimento e na produtividade. Chegamos a nos perguntar “como não percebíamos tamanha incompetência, despreparo, desestímulo?”.

Todos os dias pela manhã, tomo um caldo “minestrone” em uma padaria próxima do trabalho, que não tem nada de ideal. Sempre a concha não está lá para nos servimos. Ora não tem pão. Ora não tem a tigela. Quando tem a concha, o pão e a tigela, a menina do caixa não está lá para cobrar. Lembra aquela anedota do inferno brasileiro e do inferno europeu.

Quando a atendente da referida padaria está bem humorada, coloca o som ambiente no máximo volume, impossibilitando qualquer comunicação inteligível entre balconista e cliente. Quando está mal humorada, liga a televisão e a sintoniza em um canal que eu nem sabia que existia. Quando briga com o namorado, liga som e TV simultaneamente, e aí vira o caos total. A caixa nunca tem moedas para o troco, insiste em repassar-nos balinhas de qualidade duvidosa e está sempre falando animadamente ao celular. Na mesa do café, dois panetones, já vencidos, aguardam um desavisado comprador a R$ 6,00 cada.

Mas acabamos acostumando. Sempre levo moedas no bolso, uso protetores auriculares, e não compro nada baratinho. Amanhã passarei a levar uma concha para o caldo, gentilmente cedida por minha querida esposa. Mas o celular da caixa parece que é o único que funciona interruptamente em Teresina.

* Arthur Teixeira Junior é funcionário público

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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