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Adoro um casamento


Por Arthur Teixeira Junior*

Imagem: GP1Arthur Teixeira Júnior(Imagem:GP1)Arthur Teixeira Júnior
Recebi um telefonema inusitado nesta semana: a chefe do Cartório de Bela Vista, bairro da Capital Paulista onde nasci, reclamava que não haveria mais espaço no livro onde foi assentado meu nascimento, em época que nem a NASA possuía um computador, para novas averbações. Referia-se, provavelmente, aos cinco casamentos e quatro divórcios que coleciono ao longo de minha pacata existência.

De fato, comecei cedo minhas vidas conjugais. Com então 18 anos, desposei Sandra, de mesma idade. Meu pai teve que dar-me a necessária autorização para tal, lavrada no mesmo Cartório já referido, pois naquela época 18 anos era ainda “de menor”.

Mas papai não perdeu viagem. Já com a caneta na mão, sob olhar atônito de todos os presentes, deu-me efusiva descompostura, argumentando que eu deveria sim era estudar ao invés de ir brincar de casinha. De nada adiantou, casamos assim mesmo.

Doze anos depois, com o relacionamento já acabado, conheci Nobue Koga, uma doce japonesinha, um ano mais velha do que eu, mas com rosto de menina. Uma semana antes de meu casamento, papai chamou-me de lado e tentou demover-me de mais esta insanidade, agora sob mais estranho argumento: combatente que foi em sua juventude na 2ª Guerra Mundial, alertava-me a cerca do perigo de dormir ao lado do inimigo, que bombardeou sorrateiramente Pearl Harbor. Novamente, sem sucesso.

Passaram-se anos, conheci Raquel, quinze anos mais jovem, de lindas pernas e pose de modelo. Resolvemos nos casar, mas não sem antes escutarmos os argumentos de papai: “_ Arthur – disse em tom de quase segredo – não vê que você poderia ter trocado as fraldas desta menina?”

Perto de eu completar meio século de vida, empossado em cargo público e novamente só, resolvi adotar (legalmente) uma criança pobre. Seu nome era (ainda é) Jéssyca, então com treze anos. Quando ela completou catorze, fiz uma bela festa de aniversário no Thiaguitos, da qual participaram muitos colegas da Repartição, que já conheciam Jéssyca de suas idas ao meu trabalho, quando, da saída do colégio, ficava sentadinha na recepção conversando com todos que lhe davam atenção.

Quando ela completou 17 anos, já mulher linda e morena-jambo, corpo escultural, resolvemos casar. Quero dizer, eu com ela. Foi um escândalo na Repartição. Pelos corredores, as carolas dedilhando seus terços, comentavam indignadas este feito. Alguns colegas não pegavam o mesmo elevador que eu. Ninguém mais sentava-se em minha mesa na hora do almoço. Na verdade, a indignação das mulheres era a inveja dos homens. Os mesmos que chamavam Woody Allen, que também casou-se com a enteada (Soon-Yi Previn), de “gênio excêntrico”, chamavam-me de “velho tarado”. Nunca entendi o porquê da discriminação.

Papai, já velhinho, mas lembrando muito bem de tudo o que já havia me dito, pegou-me pelo abraço e no canto do Cartório alertou-me: “_ Arthur, não vê que você poderia ter trocado as fraldas da mãe desta menina?”

Jéssyca montou um restaurante no interior, onde chefiava a cozinha de boa cozinheira boa que era, e, no ano passado, fugiu com o garçon, um guri dois anos mais novo que ela, para delírio das velhas fofoqueiras aqui da Repartição.

Papai se foi em abril deste ano, 20 dias antes de meu casamento com Elza, 30 anos mais jovem do que eu.

Ontem sonhei com ele: envolto em muita luz, caminhava tranquilo por um florido jardim, ainda com o semblante sereno, mas sério. Parecendo flutuar de tão suave seu caminhar, aproximou-se de mim, apoiou suas mãos sobre meus ombros e olhou-me firmemente com aqueles olhos verdes que levou para o outro lado. Os cantos de sua boca curvaram-se para baixo, dando-lhe um ar severo. Com voz firme como sempre, disse-me: “_ Arthur, seu irresponsável!...”


* Arthur Teixeira Junior é funcionário público

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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