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Divulgar somente o que podemos


*Por Arthur Teixeira Júnior

Imagem: ReproduçãoArthur Teixeira Junior (Imagem:Reprodução)Arthur Teixeira Junior 

Em minha atual situação de “preso domiciliar”, resta-me assistir todos os telejornais e consultar todos os sites que me deem informações sobre o mundo exterior. Até mesmo o Boletim Interno de onde trabalho. Vamos lá:

O Governo do Distrito Federal começou a desocupar a orla do Lago Paranoá, área nobre de Brasília e uma das mais caras do Brasil, sonho de consumo de 12 em cada 10 corruptos locais. O motivo é óbvio: espertalhões privatizaram a seu proveito áreas públicas, e lá ergueram quadras de tênis, ancoradouros para lanchas, piscinas, campos de futebol e outras obras de subsistência. Logicamente, tiveram o cuidado de tudo cercarem com muros, telas e arame farpado, evitando assim o esbulho e o acesso público. Na imagem, uma retroescavadeira novinha, pintada de vermelho e branco, operada por um tratorista galego, imberbe, devidamente uniformizado e com todos os EPI’s (equipamentos de proteção individual). A segurança da operação era feita por sisudos homens com terno escuro, gravata e alvas camisas. Nenhuma arma aparente. Os profissionais de imprensa que cobriam o fato não eram incomodados. Pareceu-me até incentivados.

Quase que simultaneamente, em São Paulo, a PM cumpria um mandado de reintegração de posse em uma área inóspita, longe de tudo, invadida por negros e suas proles, onde lá ergueram suntuosas casas de taipa e barracos de madeira, entulhos e até tijolos aparentes. O trabalho foi executado por um érbio de bermudas e sem camisa, conduzindo um trator amarelo sujo e velho. Espocavam bombas de efeito moral e gás, miscigenados com os estampidos dos disparos das balas de borracha, mas encobertos pelos incessantes latidos dos ferozes cães ditos adestrados e relinchos equinos. Quem mais tomava porrada eram os jornalistas que lá estavam.

O gerente de uma construtora local explica ao repórter as demissões em massa dos trabalhadores. Enumera: “a desaceleração do PAC reverteu a expectativa do setor, o aumento da taxa SELIC desencorajou novos investimentos e os desdobramentos da Operação Lava Jato diminuíram os quadros das maiores empreiteiras...”. O repórter balançava afirmativamente a cabeça, com um leve sorriso nos lábios, dando a impressão que a tudo compreendia e com tudo concordava.

Demitindo minha empregada doméstica, acredito que fui mais objetivo: “Não tenho mais grana para pagar teu salário, pois o meu é o mesmo desde 2.006. E a Dilma vetou a correção salarial. Antes você na merda do que eu.”. Acrescento “in off”: “ ...e não tenho auxílio moradia ou tampouco estudo pago pelo Estado para meus filhos...”

Notícia foi também um milionário, filho de um famoso médico, que foi preso depois de atropelar (na calçada) um trabalhador. O motorista assassino estava embriagado e já havia sido processado inúmeras vezes por dirigir sob efeito de drogas, tendo centenas de multas em aberto e mais de 25 pontos na CNH nos últimos doze meses. A manchete foi sua prisão e não o fato de um infrator, bêbado contumaz, inabilitado para conduzir veículos automotores, estar ainda dirigindo nas madrugadas cariocas. Mais uma vez bêbado.

Um repórter do interior paulista é indiciado por ter divulgado transcrições de receptação telefônica em um processo onde “gente importante” estaria envolvida. As transcrições foram obtidas no balcão do Fórum responsável pelo processo, processo este que obviamente não tramitava sob segredo de Justiça. Seria assim como culpar o termômetro pela febre do paciente...

Ora, se não era para divulgar (ou criticar), faça como um órgão público federal conhecido, que não divulga os contratos firmados pela Instituição no site interno desde 2014. Vá lá e confira: “publicações – contratos”. A responsável alega que não tem tempo disponível e ninguém reclama. Só eu. Coloco-me como voluntário para digitalizar e publicar estes contratos tão misteriosos, pois posso digitaliza-los daqui de casa e sem sair de minha rodante cadeira.

Enfim, agora analisando com mais tempo (compulsoriamente), vejo que as notícias divulgadas pelos principais órgãos de imprensa não são de todo mentirosos ou falsos. Na verdade, divulgam o quê dá “Ibope” e o que interessa ao poder constituído que o público tenha conhecimento.

A Imprensa é o quarto poder da República, e assim deve ser tratada. E assim deve se comportar.

*Arthur Teixeira Júnior é colaborador

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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