Após uma visita técnica ao Complexo Penitenciário da Papuda, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado divulgou, nesta terça-feira (18), um relatório que aponta “falhas” estruturais graves na unidade e recomenda que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) continue cumprindo prisão domiciliar. A inspeção foi realizada nessa segunda-feira (17) pelos senadores Damares Alves (Republicanos-DF), Eduardo Girão (Novo-CE), Márcio Bittar (PL-AC) e Izalci Lucas (PL-DF).

Presidente da comissão, Damares destacou a precariedade das instalações e alertou para riscos à integridade física dos custodiados. “O risco de morte é real e não há condições estruturais para os agentes penais prestarem o atendimento adequado”, afirma o relatório.

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Senadora Damares Alves

Clezão é citado como exemplo da falta de estrutura

O grupo lembrou o caso de Cleriston Pereira da Cunha, conhecido como Clezão, preso pelos atos de 8 de janeiro e morto na Papuda em 2023. Para os senadores, o episódio demonstra que, dois anos depois, o sistema prisional do DF “continua sem condições para atender presos que necessitam de cuidados especiais de saúde”.

A visita dos parlamentares foi motivada pela ida de uma equipe do ministro Alexandre de Moraes ao presídio. A ação penal referente à suposta tentativa de golpe de Estado, pela qual Bolsonaro foi condenado, está nas etapas finais. Com isso, Moraes pode determinar, já nas próximas semanas, o início do cumprimento da pena de 27 anos e 3 meses em regime fechado. Desde 4 de agosto, Bolsonaro cumpre prisão domiciliar.

Há a possibilidade de que o ex-presidente seja encaminhado ao 19º Batalhão da Polícia Militar, conhecido como “Papudinha”, localizado dentro do complexo.

Tratamento “diferenciado”, e não privilegiado, dizem senadores

Para a comissão, Bolsonaro “não pode ser tratado como um preso comum” devido a questões de segurança e saúde. O relatório afirma que o princípio da igualdade não exige tratamento idêntico a todos os custodiados, mas sim medidas adequadas às particularidades de cada um.

Sem anúncio no momento

Os senadores defendem que um eventual cumprimento da pena em regime fechado poderia colocar Bolsonaro em risco, citando a presença de integrantes de quatro facções criminosas na Papuda e o histórico do ex-presidente de enfrentamento ao crime organizado.

Problemas de saúde e falta de atendimento médico

O relatório enfatiza que Bolsonaro enfrenta complicações decorrentes do atentado a faca de 2018, incluindo aderência intestinal recorrente, refluxo, soluços constantes, episódios de baixa pressão e falta de ar prolongada. Ele exige atendimento especializado em até 20 minutos, tempo equivalente ao deslocamento até o hospital de referência.

No entanto, segundo a comissão, a Papuda não possui médicos de plantão contínuo. O atendimento se limita ao horário comercial (9h às 17h), e na Papudinha há apenas um médico por semana. Em situações emergenciais, a triagem é feita por policiais penais sem formação médica.

“Ressalta-se que os policiais não possuem formação técnica para realizar avaliação médica, o que pode representar risco à integridade física do custodiado e eventual omissão de socorro involuntária”, aponta o relatório. A CDH também destaca falhas na guarda e distribuição de medicamentos, além de relatos de presos sobre a falta de remédios, irregularidade nos tratamentos e problemas na alimentação, incluindo refeições azedas, estragadas ou sem valor nutricional adequado.

A comissão concluiu que manter condenados em instalações inadequadas pode significar uma “livre e consciente assunção do risco morte”. Diante disso, recomenda que, caso a pena de Bolsonaro seja mantida e transite em julgado, a execução ocorra em prisão domiciliar, devido à “gravidade do seu estado de saúde”. Os senadores também pedem que órgãos responsáveis adotem medidas imediatas para corrigir as falhas identificadas e informem oficialmente o Senado sobre as providências tomadas.