A defesa do Banco Master planeja uma nova ofensiva jurídica após conseguir o envio das investigações para o Supremo Tribunal Federal (STF) e garantir sigilo absoluto no processo. A estratégia dos advogados é questionar a credibilidade do Banco Central (BC) e atacar diretamente a decisão que resultou na liquidação da instituição financeira, com o objetivo de reverter a medida e, eventualmente, obter ressarcimento.

O plano já foi exposto em manifestações encaminhadas ao STF e ao Tribunal de Contas da União (TCU). No Supremo, o ministro Jhonatan de Jesus solicitou esclarecimentos ao Banco Central sobre a liquidação do banco controlado por Daniel Vorcaro, classificada por ele como uma medida extrema.

Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF
Ministro Dias Toffoli

Para avançar, a defesa busca criar elementos que justifiquem uma decisão do ministro Dias Toffoli contra diretores e técnicos do BC, apostando no histórico recente do magistrado. Após o episódio em que viajou no avião de um empresário ao lado do advogado de um dos investigados, Toffoli tem proferido decisões consideradas alinhadas aos interesses do Master. Recentemente, o ministro negou pedidos da Procuradoria-Geral da República (PGR) e do próprio Banco Central para suspender a acareação entre Daniel Vorcaro, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, e o diretor de fiscalização do BC, Ailton Aquino.

Na decisão, Toffoli afirmou que “Aquino não é investigado”, mas colocou os envolvidos em condição semelhante no procedimento, cujo objetivo é confrontar versões, mesmo sem que nenhum deles tenha prestado depoimento até o momento.

A liquidação do Banco Master foi aprovada por unanimidade pela diretoria colegiada do Banco Central. O presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, também votou favoravelmente, embora sua manifestação não fosse necessária, já que os outros oito diretores apoiavam a medida. Com isso, toda a cúpula do BC assumiu responsabilidade pela decisão.

Apesar do consenso final, Ailton Aquino foi apontado como o maior resistente à liquidação. Internamente e no sistema financeiro, ele era visto como aliado do Master. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) registrou 38 comunicados alertando para riscos de liquidez, inconsistências no balanço e outras irregularidades, a maioria direcionada à área comandada por Aquino, que teria minimizado os problemas em reuniões presenciais, segundo relatos.

Sem anúncio no momento

A discussão sobre medidas mais duras ganhou força a partir de março de 2025, quando o BRB anunciou a compra de 58% das ações do Master, mantendo Daniel Vorcaro na administração, o que caracterizou um socorro financeiro sem transferência de controle. Durante a análise da operação, a diretoria de Organização do Sistema Financeiro identificou fraudes em contratos de crédito consignado, que teriam justificado o repasse de R$ 12,2 bilhões do BRB ao Master antes da fusão.

O episódio acentuou divisões internas no Banco Central. Enquanto a área comandada por Renato Gomes defendia intervenção imediata, Ailton Aquino buscava alternativas para manter o banco em funcionamento. Técnicos mais diretamente envolvidos na apuração das fraudes eram ligados a Gomes, cujo mandato já se encerrou.

Dentro do BC, cresce o receio entre servidores sobre possíveis convocações para depoimentos, diante de relatos de pressão política levados ao Ministério Público e à Polícia Federal, considerados inéditos em favor de uma única instituição financeira.

Em julho de 2025, o ministro do STF Alexandre de Moraes teria intercedido junto ao presidente do Banco Central em favor do Master. Moraes, cuja esposa mantém contrato de R$ 130 milhões com o banco, manifestou simpatia por Daniel Vorcaro e alegou possível perseguição por grandes concorrentes. Após ser informado sobre as fraudes, no entanto, reconheceu a necessidade de investigação.

No mesmo período, o Banco Master deixou de cumprir exigências de depósitos compulsórios junto ao Banco Central e solicitou ao FGC a abertura de linhas de crédito, sinais de agravamento da crise de liquidez. Dois dias antes da decretação da liquidação e da prisão de Vorcaro, o empresário chegou a marcar uma reunião com Ailton Aquino para informar sobre possíveis interessados na compra do banco, incluindo uma financeira e um fundo árabe não identificado.