O policial federal Ricardo Matias Rodrigues, de 53 anos, réu por matar um homem e ferir outro durante uma festa em um barco em 2016, recebeu mais de R$ 22 mil em gratificações e diárias de viagens a trabalho no final de 2020 e início de 2025. Após a anulação da primeira condenação que havia sido de 24 anos de prisão por erro processual, ele será julgado novamente pelo Tribunal do Júri.
De acordo com informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública, a Polícia Federal não divulga determinados dados para proteger a capacidade investigativa e garantir a segurança de operações e servidores. Por esse motivo, o salário de Ricardo não está disponível para consulta no Portal da Transparência.
O agente atua na Diretoria de Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor) da Polícia Federal desde 2006.
Ricardo recebeu as diárias por ministrar cursos de gestão de crise e segurança durante cinco dias em Brasília (DF), Eunápolis (BA), Goiânia (GO) e Paracatu (MG), além de ter viajado para participar de outras capacitações pelo país. Cada viagem custou, em média, R$ 2 mil, pagos pelo Ministério da Justiça e Segurança PúblicaMinistério da Justiça e Segurança Pública .
O policial possui graduação em Ciências Econômicas e experiência na área de Ciência da Informação, com foco em Segurança Pública. Trabalha principalmente com temas como “Novo Cangaço”, planos de defesa, crime articulado e domínio de cidades. Também tem especializações em inteligência competitiva, contrainteligência corporativa e um MBA em gerenciamento de crises.
Após o crime, que se tornou amplamente conhecido, Ricardo chegou a ser homenageado com honrarias máximas das Polícias Militares de seis estados: Bahia, Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Rio Grande do Norte e Pernambuco.
O crime
Ricardo Matias será novamente julgado por homicídio duplamente qualificado, por motivo fútil e por uso de recurso que impossibilitou a defesa da vítima, o bancário Cláudio Muller, de 47 anos.
Além do homicídio, ele também responderá por atirar em Fábio Cunha, então com 37 anos, que sobreviveu após ser baleado no peito. A bala permaneceu alojada. Os disparos foram feitos com uma pistola Glock 9mm. O policial não foi preso na ocasião porque não houve flagrante por parte dos agentes que atenderam a ocorrência.
Os depoimentos de testemunhas divergem em alguns pontos, mas todas citam que um desentendimento entre mulheres presentes na festa teria dado início à confusão que terminou na tragédia.
A esposa de Cláudio afirma que foi agredida pela companheira do policial, o que levou o marido e o amigo Fábio a pedirem explicações.
Já Ricardo diz que, durante a comemoração do aniversário de três mulheres na embarcação Lake Palace, houve uma briga, e Cláudio e Fábio teriam agredido sua esposa. Ele afirma que sacou a arma, mandou que os dois se afastassem e, diante do suposto descumprimento da ordem, atirou uma vez em cada um. Depois, teria pedido que alguém chamasse socorro.
Após o ocorrido, o policial se apresentou à 5ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), confessou estar ciente de seus atos e alegou legítima defesa. Ele entregou a arma e foi liberado após assinar um termo de compromisso para comparecer aos processos judiciais.
Essa versão, no entanto, é contestada por testemunhas que dizem não ter ouvido o agente se identificar como policial. O próprio Ricardo admitiu ter consumido bebidas alcoólicas na festa. A defesa sustenta que ele ingeriu “apenas duas ou três taças de vinho”.
A vítima fatal, Cláudio Muller, era assessor empresarial de tecnologia da informação do Banco do Brasil. Nascido no Rio de Janeiro, mudou-se para Brasília em 1998. Ele deixou duas filhas — uma de 22 anos e outra de 9 —, além da esposa e de um enteado.
Fábio Cunha, amigo de Cláudio e também baleado, chegou a pedir indenização de R$ 800 mil pelos danos sofridos. A Justiça reduziu o valor para R$ 50 mil e condenou Ricardo Matias ao pagamento da quantia.