A decisão do ministro Alexandre de Moraes de colocar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em prisão domiciliar provocou forte reação dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) e deixou o magistrado isolado na Corte, conforme apuração da colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo .

Ministros que não integram a Primeira Turma, responsável pelo julgamento do caso, e até alguns que dela fazem parte consideram a medida exagerada, desnecessária e frágil juridicamente. Para integrantes do tribunal, a decisão enfraquece o STF justamente no momento em que a instituição, e especialmente Moraes, enfrenta ataques intensos do governo norte-americano de Donald Trump.

Foto: Ton Molina/STF
Alexandre de Moraes

A avaliação predominante é de que o ministro deverá reconsiderar a ordem. Magistrados ouvidos pela reportagem apontam contradição no fato de Moraes ter afirmado, em decisão anterior, que Bolsonaro poderia “proferir discursos em eventos públicos ou privados” e, na sequência, determinar sua prisão domiciliar por ter se manifestado brevemente, por telefone, para apoiadores em Copacabana no domingo (3).

Na ocasião, em viva-voz durante ligação feita por seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, o ex-presidente disse: “Boa tarde, Copacabana. Boa tarde, meu Brasil. Um abraço a todos. É pela nossa liberdade. Estamos juntos".

Efeito político reverso

Do ponto de vista político, ministros avaliam que a medida quebrou um consenso que vinha se formando entre amplos setores do empresariado, da imprensa e da opinião pública: o de que o STF reagia de forma adequada às investidas de Trump contra o Brasil.

Até então, o clima era favorável ao Supremo e contrário a Trump e Bolsonaro. Pesquisas indicavam que a maioria da população rejeitava as atitudes do presidente norte-americano e aprovava a defesa da soberania brasileira feita pelo presidente Lula. A imposição de tornozeleira eletrônica a Bolsonaro, dias antes, também havia sido bem recebida pela opinião pública, que via risco de fuga do ex-presidente.

Sem anúncio no momento

Antes da prisão domiciliar, empresários, economistas, juristas, diplomatas e ex-chanceleres eram praticamente unânimes ao classificar as ações de Trump como chantagem contra o Brasil e acusar Bolsonaro e aliados de traição à pátria.

No entanto, segundo um magistrado do STF, a decisão de segunda-feira (4) inverteu parte desse cenário, deslocando críticas para a Corte.

“A conta do tarifaço de Trump começou a cair no colo do Supremo”, afirmou.

Desde então, editoriais de jornais, analistas políticos e líderes empresariais passaram a criticar duramente a decisão de Moraes, questionando sua proporcionalidade e impacto institucional.

A defesa de Bolsonaro já recorreu pedindo que o ministro reveja a ordem de prisão domiciliar.