A Polícia Federal (PF) investiga movimentações financeiras envolvendo Ryan Santana dos Santos, conhecido como MC Ryan SP , a influenciadora Deolane Bezerra e o Instituto Projeto Neymar Jr . Conforme apurado na Operação Narco Fluxo, Deolane teria atuado como uma espécie de “conta de passagem” e repassado valores à ONG do jogador em uma estratégia descrita como “limpeza de imagem”.

De acordo com os investigadores, Deolane movimentou cerca de R$ 5,3 milhões em um intervalo de 47 dias, entre 14 de maio e 30 de junho de 2025. Nesse período, ela recebeu R$ 430 mil da produtora ligada a Ryan e transferiu R$ 1,16 milhão ao Instituto Neymar Jr, além de outros R$ 1,1 milhão destinados a uma empresa especializada em blindagem de veículos. Nem o jogador nem a instituição são alvos da investigação.

Foto: Reprodução/Instagram
Deolane Bezerra

Ryan foi detido na última quarta-feira (15) durante a Operação Narco Fluxo, sob suspeita de liderar e ser o principal beneficiário de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro. Ao todo, outras 32 pessoas também foram presas, entre elas Marlon Brendon Coelho Couto Silva, o MC Poze, Raphael Sousa Oliveira , responsável pela página Choquei, e o casal de influenciadores Chrys Dias e Débora Paixão.

Sobre o repasse de Ryan para Deolane, a PF afirma que “há indícios de que esta transação configure uma evidência material do vínculo financeiro direto entre os dois investigados, demonstrando que o fluxo de caixa da produtora de Ryan, suspeita de misturar receitas de shows com recursos de apostas e rifas, irriga também as contas de aliados estratégicos que enfrentam investigações similares por lavagem de dinheiro e associação criminosa”.

“Em suma, a transferência de R$ 430 mil não aparenta ter justificativa comercial ordinária de prestação de serviços, mas robustece a tese de que Deolane e MC Ryan SP compartilham um ecossistema financeiro comum”, aponta a representação policial.

Deolane já havia sido presa em setembro de 2024, em Recife (PE), acusada de participação em um esquema envolvendo lavagem de dinheiro e apostas ilegais, mas acabou sendo liberada poucos dias depois.

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“O relatório de inteligência destaca que Deolane já é investigada por crimes contra a economia popular e lavagem de dinheiro via rifas digitais, e o recebimento de recursos da MC Ryan SP Produção reforça a suspeita de que os capitais ilícitos circulam livremente entre as pessoas jurídicas e físicas do grupo para serem integrados na economia formal”, diz a PF.

Em relação às transferências feitas ao Instituto Neymar Jr, os investigadores interpretam a ação como tentativa de melhorar a imagem pública.

“Essas operações [ao instituto e à empresa de blindagem] sugerem o uso da liquidez financeira para aquisição de bens de alto valor e ações de limpeza de imagem”, diz outro trecho da representação.

A PF também destacou que chamou a atenção o padrão de movimentação na conta de Deolane, com entrada de valores elevados e saídas quase imediatas, o que pode dificultar o rastreamento dos recursos.

Procurada, a influenciadora e sua defesa não se manifestaram até a publicação da reportagem. O espaço permanece aberto.

Segundo a PF, mais de 200 agentes participaram da operação, que cumpriu 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária, autorizados por Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos. As ações ocorreram em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal.

As autoridades estimam que o grupo investigado tenha movimentado mais de R$ 260 bilhões. Durante a operação, foram apreendidos armamentos, veículos de luxo, dinheiro em espécie, documentos e aparelhos eletrônicos que devem contribuir para o avanço das investigações.

A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 2,2 bilhões em bens de Ryan, medida que atinge 77 alvos, entre pessoas físicas e jurídicas. Conforme a decisão, o valor foi calculado com base nos lucros estimados das atividades ilícitas, incluindo “tráfico internacional de mais de três toneladas de cocaína, somado ao fluxo financeiro identificado nos relatórios de inteligência financeira encaminhados pelo Coaf".

Também foram impostas medidas como sequestro de bens e restrições societárias, com o objetivo de interromper as práticas ilegais e garantir recursos para eventual ressarcimento. As investigações seguem em andamento, e os envolvidos podem responder por associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

A defesa de MC Ryan declarou, em nota, que ainda não teve acesso ao procedimento e disse confiar que os esclarecimentos a serem apresentados irão comprovar a verdade dos fatos.

“Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável”.

Os advogados de MC Poze afirmaram não ter conhecimento dos autos nem do conteúdo do mandado de prisão. “Com acesso aos mesmos, [a defesa] se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário”, informou o texto.

A defesa de Raphael Sousa, responsável pela página Choquei, declarou em nota que “seu vínculo com os fatos investigados decorre, exclusivamente, da prestação de serviços publicitários por meio de sua empresa, responsável pela comercialização de espaço de divulgação digital. Os valores por ele recebidos referem-se a serviços efetivamente prestados de publicidade e marketing, atividade lícita e regularmente exercida há anos”.

De acordo com o advogado Pedro Paulo de Medeiros, “Raphael não integra organização criminosa, não participou de qualquer esquema ilícito e jamais exerceu função diversa da veiculação publicitária contratada”.

Já a defesa de Chrys Dias e Débora Paixão informou que, por se tratar de um processo sob segredo de Justiça, as manifestações serão feitas exclusivamente nos autos. “Repudiamos os vazamentos de imagens que violaram a privacidade da família e a presunção de inocência, reiterando nossa confiança na Justiça”, diz a nota.