A fintech Cartos Sociedade de Crédito Direto S.A. voltou a chamar a atenção da Polícia Federal (PF) após já ter sido investigada no caso envolvendo o Banco Master , do empresário Daniel Vorcaro . Agora, o nome da empresa surge em um suposto esquema bilionário de lavagem de dinheiro que teria como líder Ryan Santana dos Santos, conhecido como MC Ryan SP . O artista foi detido na última quarta-feira (15), durante a Operação Narco Fluxo. As apurações apontam para uma estrutura criminosa que utilizaria os setores fonográfico e de entretenimento como fachada para ocultar recursos de origem ilegal.

De acordo com a PF, a Cartos teria fornecido infraestrutura financeira, no modelo conhecido como Banking as a Service (BaaS), para uma empresa apontada como fachada: a Broker Platinum Invest e Tecnologia Ltda. Essa companhia, segundo os investigadores, era usada de forma estratégica dentro do esquema. Ainda conforme a investigação, a Broker funcionaria como um canal intermediário clandestino, movimentando valores provenientes de plataformas ilegais de apostas e redistribuindo esses recursos para contas de laranjas e operadores financeiros ligados ao grupo.

Foto: Reprodução/ Youtube
Daniel Vorcaro e MC Ryan SP

A Polícia Federal afirma que a Cartos pode ter atuado sob “cegueira deliberada” ao firmar contrato com a Broker Platinum, mesmo diante de “dados cadastrais manifestamente viciados e incompatíveis”. Entre os pontos levantados está o capital social declarado de R$ 10 mil, considerado “baixo” para uma empresa que se apresentava como corretora de títulos e valores imobiliários.

A Broker alegava desempenhar atividades financeiras complexas, como intermediação de valores, processamento de dados e consultoria em tecnologia da informação, o que justificaria as movimentações elevadas. No entanto, não possuía autorização do Banco Central nem da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para atuar nesse segmento. Outro elemento destacado é o fato de a empresa compartilhar endereço com outras fintechs sob investigação, como YCFSHOP (OMS Tecnologia) e SHOPRMS. Para a PF, isso reforça a hipótese de que todas operavam sob uma mesma estrutura ou comando.

O atual sócio da Broker, Jonatas Cleiton de Almeida Santos, informou residir no mesmo endereço comercial da empresa, o que levanta suspeitas sobre o uso de endereço virtual ou possível atuação como laranja. Já a fundadora, Estefany Pereira da Silva, é apontada por supostamente utilizar dados ideologicamente falsos para firmar contratos bancários e teria deixado a sociedade pouco antes de grandes transferências financeiras.

Segundo os investigadores, embora se apresentasse como corretora, a Broker atuava, na prática, como um estabelecimento que recebia grandes volumes de dinheiro, posteriormente distribuídos por meio de transferências via Pix, movimentações que, na avaliação da PF, deveriam ter acionado alertas internos de compliance da Cartos.

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A apuração também indica que a fintech teria ignorado irregularidades e, além disso, evitado uma fiscalização mais rigorosa do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) ao fornecer informações consideradas superficiais. Um relatório enviado ao COAF pela empresa, segundo a PF, omitia dados relevantes sobre o volume de transações da Broker e abrangia apenas um intervalo curto, entre 6 e 10 de outubro de 2024. Para os investigadores, tratou-se de uma “comunicação defensiva”, possivelmente usada para reduzir riscos de sanções.

A Cartos também aparece como alvo em outras apurações relevantes, incluindo a CPI das Bets e operações como Compliance Zero e Sem Desconto, que investigam, respectivamente, o escândalo do banco Master e descontos indevidos relacionados ao INSS. Na CPI das Bets, a fintech é mencionada como possível instrumento para lavagem de dinheiro oriundo de jogos de azar. As autoridades também apuram eventuais conexões com organizações criminosas e influenciadores digitais. Segundo a PF, o modelo identificado é semelhante ao que aparece no caso envolvendo MC Ryan.

Já nas investigações sobre o banco Master e irregularidades no INSS, reveladas pelo portal Metrópoles, a Cartos surge como uma ferramenta utilizada para ocultar movimentações financeiras de grande escala, funcionando como uma espécie de “caixa-preta” que dificultaria o rastreamento das operações.

Apesar dos indícios levantados, no inquérito relacionado ao núcleo de MC Ryan, a Cartos não é formalmente apontada como integrante da organização criminosa. A empresa é tratada como um elemento que teria possibilitado o funcionamento da estrutura. Não houve mandados de busca e apreensão contra a fintech, nem pedidos de prisão para seus representantes, ao contrário do que ocorreu com 39 investigados.

Em nota, a Cartos afirmou que não possui qualquer relação, direta ou indireta, com atividades ilícitas, “repudiando veementemente qualquer insinuação nesse sentido”. “Todas as suas operações são legítimas, íntegras e devidamente lastreadas, com documentação completa, rastreável e em conformidade com a regulamentação vigente, incluindo operações estruturadas no âmbito de BaaS”, diz a empresa.

Ainda segundo a nota, a atuação da fintech nesse modelo “é sustentada por controles robustos de compliance, prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo (PLD/FT), bem como por rigorosas políticas de governança e gestão de riscos, assegurando segurança jurídica e operacional a parceiros e ao mercado”.

“Diante do exposto, a empresa informa que não tem conhecimento de eventual utilização de contas por correntistas para a prática de atos ilícitos, razão pela qual entende figurar como possível vítima na situação. A instituição permanece à inteira disposição das autoridades competentes para prestar quaisquer esclarecimentos necessários”, finaliza a nota.

Em posicionamento, a defesa de MC Ryan declarou que ainda não teve acesso ao procedimento, mas disse confiar que os esclarecimentos futuros irão demonstrar a realidade dos fatos.

“Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável”, disseram os advogados.

Os advogados de MC Poze informaram desconhecer o conteúdo dos autos e o teor do mandado de prisão. “Com acesso aos mesmos, [a defesa] se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário”, afirmou a defesa.

Já os representantes de Raphael Sousa, também preso na Operação Narco Fluxo e proprietário da página Choquei, disseram em nota que “seu vínculo com os fatos investigados decorre, exclusivamente, da prestação de serviços publicitários por meio de sua empresa, responsável pela comercialização de espaço de divulgação digital. Os valores por ele recebidos referem-se a serviços efetivamente prestados de publicidade e marketing, atividade lícita e regularmente exercida há anos”.

Segundo o advogado Pedro Paulo de Medeiros, “Raphael não integra organização criminosa, não participou de qualquer esquema ilícito e jamais exerceu função diversa da veiculação publicitária contratada”. Por fim, a defesa de Chrys Dias e Débora Paixão informou que, em razão do segredo de Justiça, as manifestações serão feitas apenas nos autos. “Repudiamos os vazamentos de imagens que violaram a privacidade da família e a presunção de inocência, reiterando nossa confiança na Justiça”, conclui a nota.