A Gafisa voltou ao centro de uma disputa judicial após credores acusarem a empresa de articular um esquema para evitar o pagamento de dívidas e blindar patrimônio. Segundo as denúncias, a construtora, que tem o investidor Nelson Tanure como acionista, atuou em conjunto com o Banco Master , com suporte jurídico do advogado Daniel Lopes Monteiro. As informações são do portal Metrópoles .
As suspeitas aparecem no contexto da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, que investiga o banqueiro Daniel Vorcaro e também cita nomes ligados à construtora.
Fundo é apontado como mecanismo de blindagem
De acordo com ações judiciais, a suposta estratégia envolveria o uso do fundo Bergamo, administrado pela Trustee DTVM, para dificultar o acesso de credores aos recursos da empresa. A gestora é ligada ao empresário Maurício Quadrado, que já teve relação com o Banco Master e também é investigado.
Um dos casos foi movido pela Polo Securitizadora, que cobrava cerca de R$ 24 milhões da Gafisa. Apesar de obter decisão judicial favorável para penhora, a empresa conseguiu bloquear pouco mais de R$ 800 mil em três anos. Posteriormente, identificou que a construtora era dona integral do fundo Bergamo, com patrimônio declarado de R$ 129 milhões em 2022, e solicitou a penhora dos valores.
Disputa judicial e atuação de advogado
A tentativa de bloqueio do fundo levou à atuação do advogado Daniel Monteiro, que representou o Banco Master em ação para impedir a penhora. A justificativa apresentada foi de que os ativos estariam vinculados ao banco por meio de alienação fiduciária.
A Polo contestou a alegação e afirmou não haver provas da operação, classificando a medida como uma manobra para dificultar a localização de bens e frustrar o pagamento de credores. Segundo a empresa, haveria uma atuação conjunta entre Gafisa e Banco Master para burlar decisões judiciais.
Documentos anexados ao processo indicam ainda que contas da construtora estavam concentradas no Banco Master e, por apresentarem saldo negativo, não eram alcançadas por penhoras. Mesmo assim, a empresa teria realizado aportes milionários no fundo, que, por sua vez, investia em empresas ligadas ao próprio banco.
Movimentações bilionárias e novas suspeitas
Registros apontam que o fundo Bergamo movimentou mais de R$ 2 bilhões em três anos, com centenas de aplicações e resgates. Em depoimento à CPI do Crime Organizado, o empresário Vladimir Timerman afirmou que os recursos circulavam por diferentes fundos até retornarem ao Banco Master, indicando uma estrutura financeira complexa.
Timerman também declarou que Nelson Tanure seria o controlador de fato da Trustee, responsável pela administração do fundo, cuja gestão estaria ligada a empresas do grupo de Daniel Vorcaro.
Outras ações e decisão da Justiça
A mesma dinâmica foi citada em processo movido por integrantes da família Klabin, que relataram dificuldades para localizar valores da Gafisa. Em um dos episódios, apenas R$ 0,01 foi encontrado em contas da empresa, enquanto recursos no fundo não eram liberados sob a alegação de vínculo com o Banco Master.
Em dezembro de 2024, a Justiça autorizou a penhora de valores do fundo Bergamo e rejeitou argumentos da administradora de que seria necessário aguardar o prazo de duração do fundo, classificando a resistência como indevida.
Posicionamentos
Após a repercussão das acusações, o Banco Master desistiu de uma das ações, e o processo com a Polo Securitizadora foi encerrado por meio de acordo. Em nota, a Gafisa afirmou que o litígio foi resolvido há pelo menos dois anos e que a relação com a empresa foi normalizada. A construtora também informou que não comenta questões relacionadas a seus acionistas.
A defesa de Daniel Monteiro declarou que o advogado atuou de forma técnica e dentro da legalidade.
As investigações seguem em andamento e buscam esclarecer se houve, de fato, a utilização de estruturas financeiras para ocultação de patrimônio e prejuízo a credores.