Apesar do discurso cada vez mais rígido do Governo Federal contra o mercado de apostas on-line, a plataforma 1xBet recebeu autorização oficial para atuar no Brasil, mesmo acumulando questionamentos judiciais relacionados à retenção de valores de apostadores e à atuação sem licença no país. As informações são do Estado de S.Paulo .
A liberação foi concedida pelo Ministério da Fazenda em julho e reacendeu o debate sobre os critérios adotados para regularização de empresas do setor. A casa de apostas, que possui histórico de controvérsias no Brasil e no exterior, afirma que sua operação nacional é independente e segue padrões de compliance, governança corporativa e práticas de jogo responsável.
No entanto, decisões judiciais em diferentes estados brasileiros apontam reclamações de clientes que tiveram saques bloqueados durante o período em que a empresa operava sem autorização formal. Em várias dessas ações, a defesa da plataforma alegou não ter responsabilidade direta sobre o domínio utilizado pelos consumidores, tese rejeitada por tribunais.
A operação brasileira da marca está vinculada à Defy Ltda, registrada em Caxias do Sul (RS), empresa ligada a investidores associados à estrutura internacional da 1xBet, sediada atualmente no Chipre. Durante o andamento dos processos judiciais, a companhia alterou sua razão social e chegou a negar vínculo direto com o portal utilizado por apostadores brasileiros.
Mesmo após mudanças regulatórias mais rígidas em 2025, a plataforma continuou oferecendo apostas no país enquanto aguardava autorização oficial. O aval definitivo foi concedido apenas em 29 de julho, após pedidos anteriores terem sido negados desde o fim de 2024.
Casos recentes ilustram a controvérsia. Em Goiás, um apostador recebeu R$ 3,1 mil após acordo firmado sem contestação. Já em Santa Catarina, a Justiça determinou a devolução de R$ 5,2 mil bloqueados da conta de uma usuária, decisão mantida em recursos apresentados pela empresa.
Outro ponto que levanta questionamentos é a exigência legal de sede física no Brasil. Embora a Defy tenha informado endereço comercial no Rio Grande do Sul aos órgãos reguladores, verificações posteriores indicaram que a empresa não funcionava mais no local informado. O Ministério da Fazenda afirmou não ter identificado irregularidades durante o licenciamento, mas informou que poderá abrir apuração caso surjam novos fatos.
No cenário internacional, a 1xBet já foi alvo de restrições em diversos países e associada, em relatórios e investigações independentes, a suspeitas envolvendo lavagem de dinheiro, evasão de divisas e irregularidades operacionais. Reportagens estrangeiras também citaram supostas conexões com eventos esportivos simulados e práticas contestadas em mercados onde a atuação da empresa é proibida.
A autorização ocorre em meio à mudança de postura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que passou a criticar publicamente o avanço das apostas on-line no Brasil. Recentemente, o petista questionou a expansão do setor e defendeu medidas mais duras para restringir o acesso de parte da população às plataformas.
Representantes das casas de apostas, por outro lado, sustentam que restrições excessivas podem impulsionar o mercado clandestino, dificultando o controle estatal e reduzindo a arrecadação tributária. O embate evidencia a contradição entre a regulamentação oficial do setor e o endurecimento político do discurso sobre seus impactos sociais e econômicos.