A população em situação de rua registrada no Brasil, apresentou um crescimento expressivo desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva . Dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) mostram que, em dezembro de 2022, último mês antes da posse do atual governo, havia 198,7 mil pessoas cadastradas nessa condição. Em junho de 2026, esse total chegou a 392,4 mil, representando um aumento de 97,4% e um acréscimo de 193,6 mil registros em pouco mais de três anos. O CadÚnico é a principal base utilizada pelo Governo Federal para identificar famílias de baixa renda e pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Desde janeiro de 2023, a média mensal de novos registros de pessoas em situação de rua passou para cerca de 4,6 mil. No período entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022, esse crescimento girava em torno de 2 mil cadastros por mês. Embora o avanço tenha começado ainda em 2022, após o período mais crítico da pandemia, os números permaneceram elevados durante os primeiros anos da atual gestão e ganharam novo impulso ao longo do primeiro semestre de 2026.
A continuidade desse crescimento enfraquece a avaliação de especialistas que atribuíram a alta observada em 2023 ao represamento de cadastros durante a pandemia de Covid-19. A expectativa era de que, após a regularização desses registros, o ritmo diminuísse gradualmente. No entanto, a evolução dos dados mostra que o aumento permaneceu consistente ao longo dos anos seguintes, indicando que outros fatores também influenciam esse cenário.
Apesar da alta, os números exigem uma análise cuidadosa. O CadÚnico não funciona como um censo nacional da população em situação de rua, mas como um sistema de registros administrativos. Dessa forma, o crescimento pode refletir tanto um agravamento das condições sociais quanto uma melhora na identificação e atualização dos cadastros pelos municípios. Ainda assim, como a comparação utiliza a mesma base de dados ao longo do tempo, os indicadores permitem acompanhar a evolução do fenômeno de maneira consistente.
Em julho de 2025, uma portaria do governo federal incluiu famílias com integrantes em situação de rua entre os grupos prioritários para ingresso no Bolsa Família . A medida foi apresentada como uma estratégia para ampliar a proteção social desse público. No entanto, a ampliação do acesso ao benefício também passou a ser alvo de questionamentos no Congresso Nacional. O deputado Hélio Lopes (PL-RJ) apresentou um requerimento cobrando esclarecimentos sobre denúncias de que organizações criminosas estariam retendo cartões do Bolsa Família pertencentes a pessoas em situação de rua. O assunto também foi debatido em audiência pública convocada pelo deputado Kim Kataguiri (Missão-SP) no início de junho.
Mesmo após o lançamento do Plano Nacional Ruas Visíveis, em dezembro de 2023, o crescimento dos registros não perdeu força. O programa foi anunciado pelo governo federal como uma resposta à crise, com investimento inicial de R$ 982 milhões. Na época da criação da iniciativa, o CadÚnico contabilizava 262,5 mil pessoas em situação de rua. Desde então, outros 130 mil registros foram incorporados à base de dados.
O governo federal sustenta que parte desse avanço decorre do fortalecimento do processo de cadastramento. Em 2025, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome informou à Agência Brasil que retomou, em 2023, a capacitação de entrevistadores e operadores do CadÚnico, reforçando o trabalho realizado pelos municípios. A pasta também atribuiu parte do crescimento a uma suposta subnotificação ocorrida durante a gestão anterior.
O deputado federal Osmar Terra (PL-RS), que comandou o Ministério da Cidadania entre janeiro de 2019 e fevereiro de 2020, rebate essa justificativa. "Não existe subnotificação no governo anterior. Quem faz esse levantamento, quem dá e fornece esses números, são os municípios. São, em geral, funcionários dos municípios, da área social, que fazem esse levantamento. Então, não depende do governo federal o número. O número não é inventado pelo governo federal. O número já vem dos municípios, e são as mesmas pessoas, normalmente, que estão num período de governo federal e no outro período de governo federal subsequente", diz.
Regionalmente, os maiores contingentes continuam concentrados nos grandes centros do Sudeste, mas o crescimento proporcional mais acelerado foi observado nas regiões Norte e Nordeste. No Norte, o número de pessoas em situação de rua cadastradas passou de 4,9 mil para 22,8 mil entre janeiro de 2023 e junho de 2026, uma alta de 367%. O Nordeste avançou de 29,1 mil para 61 mil registros, crescimento de 109%. Já o Sudeste registrou aumento de 85%, o Sul de 83% e o Centro-Oeste de 79%. Em Roraima, estado impactado pela crise migratória na fronteira com a Venezuela, o total saltou de 1.460 para 10.162 pessoas cadastradas, quase sete vezes mais. Rondônia apresentou alta de 450%, enquanto São Paulo, que reúne o maior número absoluto de pessoas em situação de rua no país, registrou crescimento de 88%.