Além dos benefícios já conhecidos no combate à obesidade e ao diabetes tipo 2 , medicamentos agonistas de GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida, popularmente chamadas de “canetas emagrecedoras”, vêm despertando o interesse da comunidade científica por um possível efeito adicional: a redução do risco de progressão de determinados tipos de câncer. Estudos recentes sugerem que essas medicações podem estar associadas a resultados favoráveis principalmente em tumores de mama, intestino, pulmão e fígado.

A obesidade é considerada um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer. Anteriormente, pesquisas já haviam demonstrado que a perda de peso obtida por meio da cirurgia bariátrica poderia contribuir para a prevenção da doença. Com o crescimento do uso dos agonistas de GLP-1, hormônio produzido pelo intestino e responsável por auxiliar no controle da glicose e da sensação de saciedade, cientistas passaram a investigar se os mesmos efeitos positivos poderiam ser observados também entre os usuários dessas medicações.

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Agonorexia representa um novo risco associado ao uso de canetas emagrecedoras

Os medicamentos são recomendados para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade por atuarem no controle da glicemia, na redução do apetite e no estímulo à perda de peso. Esses efeitos, segundo especialistas, podem gerar impactos importantes em diversos mecanismos do organismo que estão relacionados ao desenvolvimento de doenças crônicas.

“O câncer é uma doença metabólica. Quando melhoramos esse ambiente metabólico e reduzimos a inflamação associada à obesidade [por meio dos medicamentos], existe um racional biológico consistente para investigar impactos também na oncologia”, analisa o nutrólogo Diogo Toledo, do Einstein Hospital Israelita.

A hipótese de que medicamentos como semaglutida e tirzepatida possam influenciar o risco de câncer não surgiu recentemente. Em 2024, um estudo publicado no JAMA Network Open, envolvendo mais de 1,6 milhão de pessoas com diabetes tipo 2, identificou uma associação entre o uso dos agonistas de GLP-1 e uma menor probabilidade de surgimento de alguns dos 13 tipos de câncer relacionados à obesidade analisados pelos pesquisadores.

Neste ano, um dos estudos que mais chamou atenção durante o encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), realizado entre os dias 29 de maio e 2 de junho, nos Estados Unidos, ampliou essa discussão ao avaliar não apenas o risco de desenvolvimento da doença, mas também sua evolução em pacientes que já haviam recebido diagnóstico de câncer.

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A pesquisa reuniu dados de 12.112 pacientes diagnosticados com sete tipos de tumores associados à obesidade, mama, próstata, pulmão, colorretal, fígado, rim e pâncreas. Todos apresentavam doença em estágio inicial ou localmente avançado, situação em que o câncer permanece restrito ao órgão de origem, mas ainda apresenta potencial para disseminação.

Durante a análise, os pesquisadores compararam pacientes que faziam uso de agonistas de GLP-1 com outros que utilizavam diferentes medicamentos para o controle do diabetes. O objetivo era verificar se essas drogas poderiam influenciar o risco de progressão para doença metastática. Os resultados indicaram que, em quatro dos sete tipos de câncer avaliados, os usuários dos agonistas apresentaram menores índices de evolução para metástase.

Entre os pacientes com câncer de pulmão, 10% dos que utilizavam agonistas de GLP-1 desenvolveram doença metastática, enquanto o índice chegou a 22% entre aqueles tratados com outras medicações para diabetes. No câncer de mama, os percentuais foram de 10% e 20%, respectivamente. Já nos casos de câncer colorretal, a progressão ocorreu em 13% dos usuários dessas drogas, contra 22% no grupo comparativo. Nos tumores de fígado, os números registrados foram de 19% e 28%. De acordo com os pesquisadores, os dados representam uma redução que varia entre 38% e 50% no risco de progressão para doença metastática nesses quatro tipos de câncer.

Apesar dos resultados considerados promissores, os cientistas destacam que ainda não é possível determinar se os benefícios observados são consequência de uma ação direta dos medicamentos sobre os tumores ou se decorrem de fatores indiretos, como a perda de peso, a redução dos processos inflamatórios e a melhora do metabolismo proporcionadas pelo tratamento.

“Apesar da falta de evidências mais sólidas dos benefícios, é significativo observar o menor risco de evolução para formas mais avançadas da doença em alguns tipos de câncer”, afirma Toledo.

Os especialistas lembram ainda que o tecido adiposo exerce funções muito mais amplas do que apenas armazenar energia. A gordura corporal também produz substâncias capazes de interferir em diversos processos biológicos do organismo, incluindo mecanismos ligados ao surgimento e ao crescimento de tumores. Por esse motivo, a redução do excesso de peso pode trazer benefícios que ultrapassam os efeitos observados na balança e alcançam áreas importantes da saúde, como a prevenção e o controle de doenças oncológicas.