A Justiça de São Paulo aceitou um acordo entre o Ministério Público de São Paulo (MPSP) e o volante Damián Bobadilla, do São Paulo , para evitar a abertura de um processo criminal por injúria racial. O caso aconteceu durante uma partida da Libertadores de 2025, quando o jogador chamou um adversário de “venezuelano de morto de fome”. O acordo foi firmado após o atleta paraguaio admitir a ofensa às autoridades.
A decisão divulgada nessa sexta-feira (13) determina o cumprimento de ações educativas. Entre elas estão aulas sobre xenofobia e a produção de quatro vídeos, com cerca de dois minutos cada, nos quais o jogador deverá explicar o que aprendeu sobre o tema. Bobadilla também terá que visitar o Museu da Imigração, localizado no bairro da Mooca e ligado à Secretaria de Cultura do estado.
Além disso, o atleta terá de doar R$ 61 mil em livros para a Coordenação de Políticas para Imigrantes e Promoção do Trabalho Decente. Outra exigência é a publicação de quatro mensagens contra a xenofobia em suas redes sociais, com intervalo de 30 dias entre elas e conteúdo previamente aprovado pelo Ministério Público. Caso cumpra todas as medidas, o procedimento será arquivado sem que haja processo criminal.
Xenofobia na Libertadores
As ofensas ocorreram durante o duelo entre São Paulo e Talleres, pela última rodada da fase de grupos da Libertadores de 2025. O caso veio à tona após o lateral-esquerdo venezuelano que sofreu xenofobia, Miguel Navarro, começar a chorar em campo. Após o jogo, o zagueiro Augusto Schott comentou o ocorrido em entrevista e denunciou o episódio de discriminação.
“Quero falar sobre um ato de racismo que nós sofremos. Nos dói porque estamos em um ambiente que fala muito sobre o combate ao racismo. Um companheiro nosso ficou muito abalado. Não poderíamos simplesmente deixar isso passar”, afirmou.
O ato aconteceu durante uma confusão após um gol do São Paulo. A partida chegou a ser interrompida, porém o gesto recomendado pela FIFA para indicar casos de racismo — cruzar os punhos acima da cabeça — não foi realizado pela arbitragem.
Depois do confronto, Navarro evitou entrar em detalhes sobre o episódio, mas confirmou que foi ofendido por Bobadilla e demonstrou abatimento com a situação. “Não quero falar disso. Não quero falar de nada, quero ir para casa. Sim, Bobadilla. Ele sabe o que disse. Me ofendeu”, desabafou o lateral-esquerdo. O jogador do Talleres foi ao posto da Polícia Militar, dentro do Morumbis. Os policiais procuraram Bobadilla nos vestiários, mas ele já havia deixado o estádio.
O técnico do Talleres, Mariano Levisman, classificou o comentário como xenofobia e lamentou o episódio, afirmando que o jogador venezuelano ficou muito abalado e chegou a cogitar deixar o campo. "Se dá muita ênfase acerca de conscientizar sobre a discriminação e tivemos um jogador que foi descriminado. Foi feito comentário ofensivo sobre sua procedência. É algo que não pode passar desapercebido. Estamos todos muito doloridos de ter um jogador que sofreu esse tipo de agressões. Está muito abatido com o comentário. Ameaçou sair de campo”, detalhou o técnico Mariano Levisman.
Posteriormente, a CONMEBOL também puniu Bobadilla com uma multa de 15 mil dólares (cerca de R$ 84 mil) por “comportar-se de forma ofensiva, ultrajante ou fazer declarações difamatórias de qualquer natureza”, “violar as pautas mínimas do que deve ser considerado como comportamento” e “comportar-se de forma que o futebol e a Conmebol possam ser desacreditados”.
São Paulo condena xenofobia
Após o ocorrido, o São Paulo publicou nota se posicionando contra qualquer tipo de manifestação discriminatória, preconceituosa ou intolerante. Veja a nota na íntegra a seguir.
“O São Paulo Futebol Clube, por meio desta nota oficial, reafirma seu compromisso com os princípios de respeito, igualdade e inclusão, pilares fundamentais que norteiam suas atividades esportivas e institucionais.
Em face dos acontecimentos ocorridos durante a partida contra o Club Atlético Talleres, válida pela CONMEBOL Libertadores, o Clube informa que está acompanhando atentamente a apuração dos fatos pelas autoridades competentes, colaborando integralmente com as investigações em curso.
O São Paulo FC reitera que repudia veementemente qualquer manifestação de discriminação, preconceito ou intolerância, seja ela de natureza racial, étnica, nacional ou de qualquer outra forma.
O Clube permanece à disposição das autoridades e das entidades esportivas para quaisquer esclarecimentos adicionais e reforça seu compromisso contínuo com a promoção de um ambiente esportivo pautado pelo respeito mútuo e pela dignidade humana.
Em relação ao nosso atleta Bobadilla, que, ao longo de sua carreira, não apresentou histórico de conduta disciplinar negativa – ao contrário, sempre pautou sua trajetória pelo profissionalismo – entendemos ser fundamental que o Clube ofereça suporte institucional. O Clube providenciará que ele seja devidamente orientado por meio de medidas educativas que serão conduzidas pela área de compliance.”