Regiões populares de comércio em São Paulo, como a Rua 25 de Março e o Brás, estão no centro de uma complexa rede de crimes que vai muito além da conhecida venda de produtos falsificados. Investigação conduzida pelos Estados Unidos, sob a liderança do ex-presidente Donald Trump , apontou as áreas como pontos estratégicos para a atuação de organizações criminosas como a máfia chinesa, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e milícias formadas por policiais civis e militares. As informações são de reportagem publicada pelo site Metrópoles .

As ruas comerciais foram citadas em investigação do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que classificou a 25 de Março como um dos maiores mercados de pirataria do mundo. A ação faz parte de um processo que visa apurar práticas comerciais consideradas “desleais” por parte do Brasil, o que inclui a venda de produtos falsificados e a violação de direitos autorais.

O relatório cita sete mercados notórios no centro paulistano: Shopping 25 de Março, Galeria Pagé, Santa Ifigênia, Shopping Tupan, Shopping Korai, Feira da Madrugada e Nova Feira da Madrugada.

Máfia chinesa, extorsão e homicídios

Uma série de reportagens do portal Metrópoles revelou como a máfia chinesa opera nessas regiões: desde lavagem de dinheiro com uso de empresas de fachada até a extorsão violenta de comerciantes. Investigações da Polícia Federal indicaram que golpistas recrutavam laranjas para abrir contas bancárias que recebiam valores oriundos de crimes virtuais. O dinheiro era então direcionado a lojas do Brás controladas por empresários chineses ligados ao crime organizado, e parte dele usada na compra de armas.

Entre 2014 e 2017, pelo menos três homicídios ligados à máfia chinesa foram registrados, incluindo casos nas proximidades da Sé e em frente a karaokês. Os assassinatos ocorreram após vítimas se recusarem a pagar taxas de extorsão exigidas pelos criminosos.

A última prisão de um integrante do grupo foi a de Lin Xianbin, de 52 anos, no fim de janeiro. Ele foi identificado por câmeras com reconhecimento facial enquanto caminhava pela 25 de Março.

Sem anúncio no momento

Mesmo com parte da quadrilha presa, levantamento do Metrópoles aponta que, dos 17 integrantes identificados, apenas dois seguem em presídios paulistas, além do líder, detido em penitenciária federal, e outro integrante em prisão domiciliar.

Milícia na Feira da Madrugada

Paralelamente à atuação da máfia chinesa, milícias compostas por policiais militares e civis também operam na região, especialmente na Feira da Madrugada. Segundo denúncia do Ministério Público (Gaeco), os agentes cobravam propinas para liberar espaços de venda nas calçadas e ruas do Brás. Os valores variavam de R$ 50 por metro quadrado a até R$ 18 mil anuais, com ameaças, agressões e intimidações armadas contra os que se recusassem a pagar.

As investigações revelaram ainda o uso de cadernetas e fitas métricas para controlar os pontos extorquidos, além da inserção de comerciantes inadimplentes em redes de agiotagem.

PCC e tráfico internacional

A facção criminosa PCC também atua nos bastidores do comércio popular. Segundo a polícia, lojas da região são utilizadas para lavar dinheiro oriundo do tráfico de drogas internacional. Um doleiro chinês servia como elo entre os lojistas brasileiros e fornecedores na China, ao mesmo tempo em que repassava parte do dinheiro a traficantes do PCC com atuação na Europa. A operação permitia que o pagamento pelas drogas fosse feito no Brasil sem deixar rastros.

Em outras apurações, o PCC também foi associado à cobrança de “taxas de proteção” a comerciantes da região.

Reação dos lojistas

A ofensiva norte-americana motivou reação imediata dos comerciantes. A Univinco, associação que representa os lojistas da 25 de Março, emitiu nota defendendo o setor, destacando que mais de 3 mil estabelecimentos formais funcionam na região, gerando empregos, pagando impostos e oferecendo produtos de qualidade. A entidade classificou o comércio local como “forte, diversificado e comprometido com a legalidade”.

Na manhã da última sexta-feira (18/7), comerciantes e trabalhadores organizaram uma manifestação na própria 25 de Março. O ato contou com fantasias de Donald Trump carregando sacos de dinheiro e de Jair Bolsonaro como prisioneiro, além de cartazes contra a investigação dos Estados Unidos. Integrantes do PCdoB também participaram da mobilização, com bandeiras e faixas contra o ex-presidente norte-americano.