Uma escalada na tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos pode ter impactos econômicos severos no país, incluindo a perda de até 5 milhões de empregos e retração de R$ 667 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) em até dez anos. A estimativa é da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), que alerta para os riscos de uma retaliação brasileira às tarifas de 50% anunciadas por Washington.
Previstas para entrar em vigor em 1º de agosto, as novas tarifas impostas pelo governo do presidente Donald Trump afetam diretamente o comércio bilateral e ampliam a tensão econômica. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem cogitado retaliar com medidas semelhantes, mas especialistas alertam que a resposta pode aprofundar ainda mais os danos à economia brasileira.
“O Ministério das Relações Exteriores precisará ser muito hábil para negociar e, quem sabe, suspender essas tarifas antes de 1º de agosto”, afirmou o jurista Ives Gandra da Silva Martins, professor da Universidade Mackenzie, ao jornal O Estado de S. Paulo.
De acordo com simulações da Fiemg, a imposição de tarifas de 50% por parte do Brasil sobre produtos dos EUA provocaria uma queda de 2,21% no PIB (cerca de R$ 259 bilhões), eliminação de 1,9 milhão de empregos e perda de R$ 36,2 bilhões em rendimentos. A arrecadação federal também sofreria, com uma redução estimada de R$ 7,2 bilhões.
O cenário se agrava diante do desequilíbrio fiscal do país. A dívida pública brasileira saltou de 71,7% para 76,1% do PIB entre dezembro de 2022 e maio deste ano.
Felipe Vasconcellos, sócio da Equus Capital, reforça o alerta: “Uma retaliação mal planejada pode gerar efeitos colaterais significativos para a economia brasileira. Setores com alta exposição ao mercado externo seriam diretamente impactados e, com eles, empregos e cadeias produtivas inteiras”, disse ao Estadão. “Para o consumidor, isso se traduz em insumos mais caros, inflação e possíveis quebras de oferta.”
Caso os Estados Unidos decidam responder com tarifas de 100%, mantendo as brasileiras em 50%, o PIB nacional pode encolher 2,49%. A possibilidade já foi cogitada por Trump, especialmente diante da manutenção de relações comerciais entre Brasil e Rússia — país do qual as importações brasileiras somaram US$ 5,1 bilhões no primeiro semestre, uma queda de 4,6% em relação ao ano anterior.
Nesse cenário, as sanções levariam à perda de cerca de 2,2 milhões de empregos e R$ 40,8 bilhões em rendimentos. Já no quadro mais extremo — com ambos os países aplicando tarifas de 100% e queda de 40% nos investimentos dos EUA e 30% dos demais países — o impacto seria devastador: retração de 5,68% no PIB, perda de quase 5 milhões de empregos, R$ 93 bilhões a menos em renda familiar e redução de R$ 18,5 bilhões na arrecadação.
“Os Estados Unidos são um parceiro tradicional e geograficamente estratégico para o Brasil”, destacou Flávio Roscoe, presidente da Fiemg. “Ambos os países perdem muito com essa medida. Responder com a mesma moeda pode gerar efeitos inflacionários devastadores no Brasil. Por isso, o caminho mais inteligente é a diplomacia”, defendeu.