"Algo parece estar podre no Departamento de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) dos Estados Unidos, em Orlando, na Flórida". É com essa frase que Mary Anastasia O’Grady, começa o seu artigo de publicado nesse domingo (27), no Wall Street Journal .

No texto, a articulista demonstra que um documento de entrada falso nos EUA, referente a Filipe Martins , ex-assessor do ex-presidente Jair Bolsonaro , foi publicado no site oficial do departamento por duas vezes desde 2024. O primeiro registro fraudulento serviu de pretexto para manter Filipe Martins na cadeia por seis meses e, desde então, em prisão domiciliar, por ordem do ministro Alexandre de Moraes. A armação contra Filipe Martins pode agravar o cerco ao ministro do STF nos EUA.

Foto: Ton Molina/STF
Ministro Alexandre de Moraes

“Não há nenhuma motivação americana óbvia para inventar uma viagem de Martins que não aconteceu. Mas alguém trabalhando dentro da CBP em nome de interesses políticos brasileiros opostos a Bolsonaro teria essa motivação”, escreveu O’Grady. A colunista relata que a CBP se recusa a prestar a informação solicitada pelos advogados de Martins, que querem saber “quem criou as entradas fantasmas e quando”.

“O crime ou o encobrimento?”

“O Departamento de Segurança Interna deveria querer saber também, por razões de segurança nacional dos EUA”, argumentou. A colunista questiona: o que é pior, “o crime ou o encobrimento?”

Com poucas evidências para sustentar a teoria de que Bolsonaro tramava um golpe de Estado contra Lula, de acordo com a colunista do Wall Street Journal, Moraes se apoia em acordos de delação premiada para construir seu caso. “As coisas não estão indo bem”, relata.

Além disso, lembra que a principal testemunha de acusação, Mauro Cid, reclamava de ter sofrido coação para depor contra Bolsonaro. Filipe Martins também afirmou ao tribunal, em audiência na última quinta-feira, que acredita ter sido preso – às vezes, em condições desumanas – para forçá-lo a delatar. Moraes se esquiva das críticas dizendo que age “para defender a democracia brasileira”.

Sem anúncio no momento

Registros de celular, comprovantes de cartão de crédito e o manifesto de um voo comercial em território brasileiro no dia 31 de dezembro de 2022 – conforme o artigo – comprovam que Martins jamais esteve nos Estados Unidos na data alegada.

Registro de entrada forjado

O documento eletrônico I-94, que registra entradas de estrangeiros nos EUA, apresentou duas vezes o nome de Filipe Martins no sistema da CBP em Orlando, Flórida. Datado de 30 de dezembro de 2022, o primeiro registro foi incluído em março de 2024. O documento foi removido em junho do mesmo ano, após questionamentos da defesa de Martins e intervenção do Departamento de Segurança Interna (DHS). No entanto, reapareceu no sistema em julho de 2025, segundo a articulista, com os mesmos erros: o nome de Filipe Martins escrito como “Felipe” e o número de um passaporte declarado como perdido em 2021.

O ministro Alexandre de Moraes continuou, mesmo após a remoção do registro fraudulento em 2024, sustentando a detenção de Filipe Martins com base nesse documento – ainda visível na seção de “histórico de viagens” do site da CBP, embora essa área contenha dados informais e sem validade jurídica.

“Litígio pendente”

A defesa de Martins move processos contra o Departamento de Segurança Interna e a CBP nos Estados Unidos, com o objetivo de acessar os registros completos do sistema que revelariam quem e quando criou a entrada falsa. Contudo, os logs entregues pelo governo norte-americano vieram com trechos censurados: sem o nome do responsável pela inclusão dos dados nem a data da manipulação, sob a justificativa de sigilo devido a um “litígio pendente”.