Após a perda abrupta de influência na Venezuela, a Rússia passou a concentrar sua estratégia para a América Latina no Brasil. A mudança ficou evidente durante a reunião de alto nível entre os dois governos realizada em Brasília, que reuniu o primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin , ministros e uma grande delegação política e empresarial. O encontro sinalizou que Moscou vê o Brasil como seu principal ponto de apoio regional em um contexto de isolamento internacional, sanções econômicas e retração de antigos aliados, como Cuba.
A aposta russa se apoia tanto no peso econômico brasileiro quanto na disposição política do governo Lula para aprofundar o diálogo. A declaração conjunta destacou cooperação em áreas sensíveis, como energia nuclear, exploração espacial, segurança cibernética e sistemas alternativos de pagamento no âmbito dos BRICS . Analistas alertam que, apesar do discurso técnico e diplomático, esses setores envolvem riscos estratégicos, sobretudo pela possibilidade de uso dual das tecnologias e pela ausência de salvaguardas claras de proteção de dados, soberania e propriedade intelectual.
No campo econômico, o eixo mais concreto da relação permanece o comércio de fertilizantes russos e a exportação de carnes brasileiras. A Rússia segue como um dos principais fornecedores de adubos ao Brasil, embora enfrente crescente concorrência da China. Especialistas avaliam que essa dependência confere pragmatismo à relação, mas também amplia vulnerabilidades econômicas e diplomáticas, sobretudo em um cenário de disputas geopolíticas e reconfiguração das cadeias globais de insumos.
Para observadores, o movimento russo revela uma tentativa de manter influência regional por meio de parcerias estratégicas com países politicamente receptivos, ainda que isso envolva promessas de cooperação difíceis de cumprir na prática. No caso brasileiro, a aproximação reforça a percepção de um alinhamento gradual ao eixo sino-russo, com potenciais custos em termos de segurança, previsibilidade econômica e relações com Estados Unidos e União Europeia.