Os promotores de Justiça que integram o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas ( GAECO ) do Ministério Público do Maranhão solicitaram exoneração coletiva das funções nesse domingo (11). A decisão ocorreu após a Procuradoria-Geral de Justiça emitir parecer favorável à soltura de todos os investigados presos na Operação Tântalo II, que apura a atuação de uma organização criminosa no município de Turilândia. A investigação aponta o desvio de R$ 56 milhões em recursos públicos no interior do estado, com prisões preventivas decretadas ao longo do processo.
O pedido foi encaminhado ao procurador-geral de Justiça, Danilo José de Castro Ferreira, e registra que o posicionamento da Procuradoria-Geral contraria o entendimento técnico adotado pelo Gaeco durante a apuração. No documento, os promotores afirmam que a manifestação favorável à soltura segue caminho distinto das provas reunidas e do conjunto de elementos apresentados ao Judiciário, que fundamentaram as decisões de prisão preventiva dos investigados.
Os integrantes do Gaeco destacam que as prisões haviam sido decretadas com base em dados considerados consistentes pelas instâncias judiciais responsáveis pelo caso. Segundo o grupo, a manifestação da Procuradoria-Geral produz efeitos diretos sobre a condução do trabalho investigativo, ao interferir em medidas cautelares adotadas no curso da apuração. Os promotores também registram que a divergência gerou impasse quanto à continuidade de suas atribuições no órgão.
No texto do pedido, os promotores apontam que o entendimento da Procuradoria-Geral não está alinhado às diretrizes do Plano Estratégico do MP-MA, que prevê o fortalecimento da persecução penal, conjunto de ações do Estado voltadas à investigação e ao processamento de crimes. Eles afirmam ainda que a divergência técnica tornou inviável a permanência no Gaeco e informam que será elaborado um relatório detalhado sobre o andamento das investigações, com o objetivo de assegurar a continuidade dos trabalhos em curso.
Assinam o pedido de exoneração dez promotores que atuam nos núcleos de São Luís, Imperatriz e Timon: Luiz Muniz Rocha Filho, coordenador do Gaeco, Ana Carolina Cordeiro de Mendonça, Fernando Antônio Berniz Aragão, Marcos Valentim Pinheiro Paixão, Eduardo André de Aguiar Lopes, Fábio Santos de Oliveira, Raquel Chaves Duarte Sales, Francisco Fernando de Morais Meneses Filho, Raphaell Bruno Aragão Pereira de Oliveira e Tharles Cunha Rodrigues Alves.
Operação Tântalo II
O prefeito do município de Turilândia-MA, Paulo Curió (União Brasil), apontado como chefe de esquema que desviou R$ 56 milhões em recursos públicos do município, foi preso no dia 24 de dezembro de 2025 juntamente com sua esposa, a primeira-dama Eva Curió, no bojo da Operação Tântalo II, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO) do Ministério Público do Maranhão.
Já a vice-prefeita Tânya Mendes (PRD), e mais cinco vereadores foram presos dois dias antes, em 22 de dezembro.
Veja a relação de alvos na Operação Tântalo II
Prisão preventiva
Paulo Curió (prefeito) – Apontado como líder da organização criminosa instalada na Prefeitura de Turilândia. Teria comandado fraudes licitatórias, direcionado contratos e articulado pagamentos ilícitos. As investigações indicam enriquecimento incompatível, superior a R$ 10 milhões em menos de cinco anos. Conversas interceptadas mostram diálogo direto com o operador financeiro sobre empresas “do esquema” e divisão dos valores desviados. Já responde a processo por fatos semelhantes em outro município.
Eva Curió (esposa do prefeito) – Integrante do núcleo financeiro. Gerenciava contas da Prefeitura e da Câmara para pagamento de despesas pessoais, realizava transferências fracionadas e articulava compra de imóveis para lavagem de dinheiro. Recebeu ao menos R$ 433 mil de investigados.
Tanya Karla Cardoso Mendes Mendonça (vice-prefeita) – Segundo o MP, deu continuidade à estrutura de poder do grupo. Indicava empresas para recebimento de recursos desviados antes mesmo de assumir o cargo. Recebia valores do Posto Turi desde 2022. A Justiça aponta risco de interferência na investigação.
Hyan Alfredo Araújo Mendonça Silva (esposo da vice) – Indicava empresas para emissão de notas fiscais frias, com percentuais entre 12% e 15%, e atuava na operacionalização dos repasses ilícitos.
Wandson Jonath Barros (operador financeiro) – Principal operador do esquema. Gerenciava os desvios, elaborava documentos e recebia 3% dos contratos fraudados. Usava empresas próprias e de fachada para lavar dinheiro. Teve a atividade de contador suspensa.
Janaína Soares Lima (ex-vice-prefeita) – Integrante do núcleo empresarial. Controlava, com o marido, o Posto Turi, que recebeu R$ 17,2 milhões da prefeitura. O casal retinha 10% dos contratos, repassando o restante conforme ordens do prefeito.
Marlon de Jesus Arouche Serrão (empresário) – Sócio de fato do Posto Turi. Mesmo após bloqueio judicial, tentou retirar valores da empresa, segundo o MP, demonstrando persistência criminosa.
Clementina de Jesus Pinheiro Oliveira (pregoeira) – Responsável pelo direcionamento da maioria das licitações, conforme ordens do prefeito. Em troca, recebia vantagens financeiras.
Gerusa de Fátima Nogueira Lopes (chefe do Setor de Compras) – Auxiliava na gestão dos desvios e usava conta pessoal para pagamentos da prefeitura. Mantinha registros manuscritos de repasses a vereadores. Recebeu R$ 386,5 mil.
Eustáquio Diego Fabiano Campos (médico) – Atuava como agiota e na lavagem de dinheiro. Financiou o prefeito e participou da aquisição de imóveis para ocultar patrimônio. Recebeu mais de R$ 900 mil em transferências do esquema.
Prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica (11 vereadores)
Por decisão judicial, todos os vereadores investigados cumprem prisão domiciliar com monitoramento eletrônico, proibidos de contato com outros investigados e testemunhas, podendo comparecer à Câmara apenas em horário comercial e para atividades legislativas.
Gilmar Carlos Gomes Araújo (presidente da Câmara) – Recebeu valores diretamente e por intermédio da esposa. Permitiu o controle das contas da Câmara pela esposa do prefeito e participou de operações financeiras do esquema.
Mizael Brito Soares – Recebeu R$ 122,4 mil de empresas envolvidas na venda de notas fiscais.
Nadianne Judith Vieira Reis – Recebeu valores diretamente e por meio de familiares. Tinha direito a indicar servidores.
Daniel Barbosa Silva – Recebeu valores em conta e em espécie. Indicava comissionados.
Josias Froes – Recebeu valores diretamente e via filho. Consta como beneficiário de repasses em espécie.
Inailce Nogueira Lopes – A mais beneficiada entre os vereadores. Recebeu valores por intermédio de familiares e em espécie. Indicava servidores e recebia pagamentos mensais.
Carla Regina Pereira Chagas – Recebeu valores diretamente e em espécie. Seu esposo, secretário municipal, também recebeu recursos.
José Luís Araújo Diniz, “Pelego” – Recebeu valores em conta e em espécie, segundo anotações apreendidas.
Sávio Araújo e Araújo – Recebeu valores diretamente e por meio do pai, além de repasses em espécie.
José Ribamar Sampaio – Recebeu valores em conta e por intermédio de filhos, além de repasses em espécie.
Valdemar Barbosa – Recebeu valores diretamente e por meio da companheira. Consta como destinatário de repasses em espécie.
Confira abaixo o memorando dos promotores do Gaeco do Maranhão ou clique aqui